Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020

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Bem-Estar Os adolescentes que usam muito equipamentos eletrônicos têm mais sintomas de déficit de atenção

Pesquisa monitorou mais de 2 mil jovens na Califórnia, nos EUA, por dois anos. (Foto: Reprodução)

A ciência ainda sabe pouco sobre o impacto que a atual profusão de equipamentos eletrônicos provoca na saúde mental de crianças e adolescentes, cada vez mais vidradas em telas. Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos, investigaram se existe relação o uso excessivo de aparelhos digitais e sintomas de déficit de atenção. O resultado do trabalho, publicado nesta terça-feira no “Journal of the American Medical Association”, indica que sim. Jovens considerados usuários intensivos de dispositivos como celulares, tablets, videogames e outras mídias têm duas vezes mais probabilidade de apresentar sintomas de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) do que usuários pouco frequentes.

Os cientistas ressaltam que não se pode falar em relação de causa e efeito: não é porque o adolescente usa muitos aparelhos digitais que ele desenvolverá o problema psiquiátrico. No entanto, existe uma estreita associação entre os dois aspectos. Na avaliação de alguns especialistas, essa relação seria, aliás, inversa: quem tem déficit de atenção é que se sentiria mais atraído por dispositivos eletrônicos.

Os pesquisadores americanos observaram o comportamento de 2,6 mil adolescentes ao longo de dois anos. O foco foram as consequências para a saúde mental de uma geração que tem as diversões digitais presentes em todos os lugares e a todo momento. Entre elas estão as mídias sociais, o streaming de vídeo, as mensagens de texto, os downloads de músicas, os chats on-line, e outros. A pesquisa difere de outras feitas anteriormente, que associavam o transtorno apenas ao excesso de televisão.

“Estudos anteriores sobre esse assunto foram feitos há muitos anos, quando mídias sociais, celulares, tablets e aplicativos móveis não existiam”, afirma um dos autores do estudo, Adam Leventhal, professor de Medicina Preventiva e Psicologia e diretor do Laboratório de Saúde, Emoção e Vício da Escola de Medicina Keck, da USC. “Novas tecnologias móveis podem fornecer uma estimulação rápida e de alta intensidade, acessível o dia todo, o que aumentou a exposição à mídia digital a um ponto que foi muito além do tudo o que já foi estudado.”

Um terço do dia on-line

Uma pesquisa recente da “Common Sense Media”, uma organização sem fins lucrativos, mostrou que adolescentes passam cerca de um terço de seu dia – quase nove horas – usando mídias on-line. Já uma pesquisa publicada no mês passado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA mostrou que 43% dos estudantes do ensino médio usavam mídias digitais por três ou mais horas todos os dias. Embora a popularidade dessas ferramentas entre crianças e adolescentes seja bem conhecida, os impactos delas sobre sua saúde mental não são.

No estudo da USC, os cientistas começaram a análise com 4,1 mil estudantes, com idades entre 15 e 16 anos, em dez escolas públicas de Los Angeles. Os colégios tinham status demográfico e socioeconômico misto. Em seguida, o número de participantes foi reduzido, descartando-se aqueles que já tinham sintomas de TDAH. Assim, restaram 2.587 estudantes. O objetivo dos cientistas foi começar a pesquisa com uma ficha em branco, para conseguir determinar a ocorrência de sintomas novos durante os dois anos que se seguiriam.

Os pesquisadores perguntaram aos alunos com que frequência eles usavam 14 plataformas populares de mídia digital. Essa frequência foi dividida em três categorias: sem uso, uso médio e alto uso. Entre 2014 e 2016, os cientistas monitoraram os estudantes a cada seis meses. Eles procuraram determinar se o uso de mídia digital na primeira avaliação estava associado a sintomas de TDAH rastreados até a última avaliação, dois anos depois.

Ao final da pesquisa, 9,5% das 114 crianças que usavam metade das plataformas de mídia digital frequentemente e 10,5% das 51 crianças que usavam todas as 14 plataformas frequentemente tinham sintomas de TDAH.

Em contrapartida, 4,6% dos 495 estudantes que não eram usuários frequentes de atividades digitais tinham sintomas do transtorno, o que se aproxima da taxa da população em geral. Metade da incidência entre os usuários intensivos.

“Não podemos dizer que as mídias foram a causa do transtorno apenas a partir do estudo, mas esta foi uma associação estatisticamente significativa”, disse Leventhal, um dos que assinaram a pesquisa.  “Podemos dizer com confiança que os adolescentes expostos a níveis mais altos de mídia digital eram significativamente mais propensos a desenvolver sintomas de TDAH no futuro.”

Para o pesquisador, os dados encontrados ajudam a preencher uma lacuna importante na compreensão de como dispositivos de mídia móvel e opções de conteúdo aparentemente ilimitadas representam risco para crianças e adolescentes. E as descobertas servem de alerta no momento em que a mídia digital se torna mais rápida e estimulante.

Na visão do neurologista pediátrico Eduardo Jorge Custódio da Silva, que é membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e médico do Hospital Pedro Ernesto, a exposição excessiva a mídias digitais tendem, sim, a ocasionar uma maior desatenção. E essa desatenção pode ser grave, muito semelhante a sintomas de TDAH – dificuldade de concentração, hiperatividade e ansiedade –, mas não levarão ao desenvolvimento do transtorno propriamente dito.

 

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