Domingo, 01 de novembro de 2026
Por Redação O Sul | 28 de dezembro de 2019
Desde janeiro de 2018, os Estados Unidos adotaram novas leis para os requerentes de asilo, o que fez alguns pais tomarem uma decisão desesperada. O governo Donald Trump instituiu o programa conhecido como “Permaneça no México” e desde então, as pessoas que buscam asilo nos EUA devem permanecer no país vizinho enquanto aguardam por uma audiência.
No entanto, em 2018 apenas 0,1% dos postulantes conseguiram asilo por meio do programa.
Depois desta medida, pais como Fernanda depositaram suas esperanças em uma brecha: os EUA precisam admitir crianças que vêm sozinhas.
“Eu disse a ele que ele encontraria um guarda no meio da ponte. E assim se foi o nosso coraçãozinho”, diz ela, que enviou o filho de sete anos para cruzar, sozinho, a fronteira.
“Como mãe, eu não queria mais assistir meu filho dormir no chão, com fome e com frio”, diz.
Refugiados no México
Por desespero, refugiados no México enviam filhos sozinhos para a fronteira. Os pais apelam para a tática na tentativa de tirar crianças do maior campo de refugiados da fronteira do México com os EUA, tão perto do Texas que os migrantes podem ver uma bandeira americana tremulando do outro lado do rio Grande.
Josue tinha cinco anos. Madeline, três. A pequena família estava reunida em uma barraca de náilon com dois cobertores, quando a temperatura desabou para quase 3ºC. As crianças começaram a tossir, disse Marili (a mãe), e os dedos das mãos e dos pés ficaram vermelhos. Casos de queimaduras provocadas pelo frio foram identificados pelo médico do acampamento.
Como a maioria dos cerca de 1.600 refugiados que solicitaram asilo no acampamento informal, Marili e seus filhos haviam atravessado a fronteira para os Estados Unidos no verão do hemisfério Norte, apenas para serem enviados de volta ao México para aguardar o julgamento de seus casos de asilo, parte de uma política americana implantada há um ano, chamada Protocolos de Proteção a Migrantes.
Em outubro, dezenas de pais viram seus filhos, dormindo ao ar livre sob o frio, ficarem doentes ou abatidos.
Muitos decidiram ajudá-los da única maneira que sabiam: enviá-los através da fronteira sozinhos. Quando Josue e Madeline ficaram mais doentes, foi a vez de Marili tomar uma decisão.
Esses casos ilustram o custo humano da política do governo Trump e sugerem que os Estados Unidos, o México e as Nações Unidas não estavam preparados para lidar com muitas das consequências inesperadas.
Marili, fugindo da violência das gangues em Honduras, sabia que crianças desacompanhadas eram acolhidas nos Estados Unidos sem ter que enfrentar a burocracia dos Protocolos de Proteção a Migrantes e a espera de meses.
A mãe de 29 anos que, como outras pessoas, pediu para não ser identificada pelo sobrenome, por temer que isso pudesse afetar seu pedido de asilo, afirmava acreditar que voltar para casa seria suicídio.
Então, ela agasalhou seus filhos com todas as roupas de inverno que lhe foram doadas e rabiscou uma carta para as autoridades de imigração dos EUA em um pedaço de papel rasgado.
“Meus filhos estão muito doentes e expostos a muitos riscos no México”, escreveu ela. “Não tenho outra maneira de colocá-los em segurança.”
Ela espremeu a carta na mão de Josue, disse ela, e indicou para as crianças três agentes alfandegários e de proteção de fronteiras dos EUA no meio da Gateway International Bridge, a ponte que se estende sobre o rio Grande, ligando Matamoros a Brownsville, no Texas.
“Josue me disse: ‘Por favor, deixe-nos ficar'”, disse Marili, chorando com a lembrança. “Mas como mãe, eu sabia que essa era a melhor decisão para eles.”
Então ela correu para a parte inferior da ponte e observou através da cerca os filhos entrarem, chorando e imaginando quando os veria novamente, na esperança de que eles encontrem seu marido.
Ele havia entrado nos Estados Unidos e solicitado asilo antes da implementação dos Protocolos de Proteção a Migrantes e recebeu autorização para ficar.
Entre outubro e novembro, de acordo com migrantes e trabalhadores humanitários, pelo menos 50 crianças fizeram a mesma travessia.
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