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Saúde Países que permitiram vacinação privada contra a covid enfrentam problemas

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Além da questão ética, a cobertura desigual, quando os mais ricos acabam sendo privilegiados, não é suficiente para conter uma pandemia. (Foto: EBC)

Em abril, na Colômbia, a empresa Rappi foi alvo de críticas nas redes sociais ao premiar seus funcionários mais destacados com doses da vacina contra a Covid-19, abrindo um debate ético sobre a vacinação privada. A empresa aderiu ao programa “Empresas pela vacinação”, que permite que companhias vacinem seus funcionários e até dependentes, programa similar a de outros países, como Indonésia, Paquistão, Líbano e Filipinas, que registraram fraudes, preços exorbitantes e até quebra de contrato com o governo, onde os acordos determinavam que uma parte das doses adquiridas pelas empresas fosse doada.

Analistas ouvidos pelo jornal O Globo apontam os erros observados nos países que adotaram o sistema híbrido de distribuição de imunizantes e alertam que, além da questão ética, a cobertura desigual, quando os mais ricos acabam sendo privilegiados, não é suficiente para conter uma pandemia, uma vez que a proteção coletiva acaba sendo preterida para dar espaço à proteção de grupos menores. Além disso, ressaltam, o negócio pode não ser rentável para as próprias empresas.

“O primeiro ponto que chama a atenção é que apenas países periféricos adotaram esse sistema no mundo. São em geral países com uma população empobrecida e uma alta desigualdade social”, afirma Adelyne Mendes Pereira, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “Nenhum dos países desenvolvidos optou por esse sistema. Mesmo em países como os EUA onde o sistema de saúde é majoritariamente privado, com indústrias farmacêuticas fortes, os governos entenderam que o papel do Estado é proteger a população de forma ampla.”

Entre as poucas nações que abriram espaço para a vacinação privada, foram adotados dois modelos: no primeiro, instituições receberam permissões para comprar, distribuir e cobrar pelas imunizações. É o caso do Paquistão, que desde abril liberou a importação privada da Sputnik V, produzida pelo laboratório russo Gamaleya – e logo de cara surgiu uma questão judicial em torno do preço.

A Autoridade Reguladora de Medicamentos havia recomendado uma média de preço entre 8 mil a 9 mil rúpias (entre R$ 255 e R$ 290), mas uma empresa entrou com processo e agora vende o pacote com duas doses por 12.220 em média (R$ 390). Com o alto preço dos imunizantes e com a demora do governo em acelerar o ritmo de vacinação pública, até agora só 4% da população foi totalmente vacinada.

Na vizinha Índia, o governo limitou os valores em clínicas privadas: A Sputnik sai por 1.145 rúpias, ou R$ 80, enquanto a dose de AstraZeneca é comercializada por 780 rúpias a dose, ou R$ 55. A vacinação privada foi liberada para impulsionar o número de imunizados na nação de 1,3 bilhão de pessoas, mas o limite de 150 rúpias cobradas pela aplicação, cerca de R$ 10, vem afastando hospitais e clínicas.

No segundo modelo, empresas recebem o aval para importar as doses e aplicá-las em seus funcionários. Mas nem sempre as contrapartidas são respeitadas: nas Filipinas, o governo liberou a compra privada desde que houvesse acordos tripartites entre governo e fabricantes, com as empresas “incentivadas” a doar metade das doses ao programa estatal de imunização, o que não aconteceu. Apenas 10% da população do país recebeu ao menos uma dose.

Na Indonésia, que enfrenta um surto de casos e onde a vacinação caminha a passos lentos, a imunização privada começou em maio, com preço médio por dose em torno de 1 milhão de rúpias, ou R$ 360. Contudo, há denúncias de pessoas que usam declarações de empresas para conseguir se imunizar, mesmo não sendo funcionárias.

“A própria natureza da ação privada é distinta da pública. As empresas querem proteger poucos grupos de forma segmentada, e por isso muitas não cumpriram os acordos de doação”, afirma Adelyne Pereira, da Fiocruz.

Na Colômbia, mais de 5 mil entidades se candidataram para comprar 2,5 milhões de doses da CoronaVac. Na semana passada, no entanto, a Câmara de Comércio de Bogotá anunciou que encerrou o plano de venda para empresas privadas, devido ao avanço da campanha de imunização pública na capital. A Colômbia vacinou 23% da população com uma dose, e quase 10% com duas.

Para Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), o momento é de se pensar no coletivo, não de forma individual.Em um cenário de pandemia, onde todos corremos risco com a Covid-19, e a produção de vacinas é insuficiente para atender a população, não podemos pensar em desviar vacinas que não temos para atender a um grupo de indivíduos.”

Não são apenas os fatores sanitários que põem em xeque a vacinação privada. No começo de julho, o Moscow Times revelou que um empresário dos Emirados Árabes Unidos obteve os direitos para vender a Sputnik V, com valores elevados pelos serviços. No Líbano, companhias ligadas a políticos compraram doses de Sputnik V oferecidas por al-Maktoum, mas, ao invés de vendê-las ao público, passaram aplicá-las gratuitamente em seus redutos, um ano antes das eleições gerais. As informações são do jornal O Globo.

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