Terça-feira, 25 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 24 de agosto de 2026
As mulheres ainda representam menos de 20% do quadro de funcionários da Petrobras, mas nunca tiveram tanto espaço no comando da companhia. Pela primeira vez, quatro diretoras executivas, sob a liderança da presidente Magda Chambriard, participam das decisões sobre os investimentos bilionários da maior empresa da América do Sul. A composição paritária da diretoria – quatro mulheres e quatro homens – é inédita na história da estatal.
Duas das áreas mais estratégicas da companhia estão sob comando feminino: Sylvia Anjos dirige Exploração e Produção, responsável pelo maior orçamento da Petrobras, enquanto Renata Baruzzi comanda Engenharia, Tecnologia e Inovação, área que concentra os principais projetos da empresa. Também integram a diretoria Angélica Laureano, responsável por Logística, Comercialização e Mercado, e Clarice Coppetti, diretora de Assuntos Corporativos.
O cenário contrasta com o início da carreira das cinco executivas. Quando ingressaram na Petrobras, engenharia, plataformas de petróleo e salas de decisão eram ambientes predominantemente masculinos. Ao Estadão/Broadcast Weekend, elas relatam os desafios para conquistar credibilidade técnica, enfrentar preconceitos e abrir espaço para outras mulheres.
Magda Chambriard enfrentou resistência antes mesmo de entrar na Petrobras. O pai não queria que ela cursasse Engenharia, mas ela insistiu. Em 1980, aos 22 anos, ingressou na estatal, quando mulheres ainda não participavam de cursos internos voltados à engenharia de petróleo.
“Mulheres não podiam nem ver obras em plataformas; eu só podia ver obras em terra, e mesmo assim tinha de voltar para a cidade. Achavam que ia dar confusão”, lembra. Mais tarde, já casada e com filhos, viu nomeações escaparem sob justificativas relacionadas à maternidade.
A carreira a levou à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), na qual se tornou a primeira mulher a ocupar a direção-geral. Magda afirma que o mercado também estranhou seu estilo de liderança. “Tenho uma personalidade em que falo baixo, falo manso”, diz. Ao assumir a presidência da Petrobras, voltou a ser comparada com estilos de gestão anteriores.
Sylvia Anjos, contratada em 1978, encontrou uma empresa com poucas referências femininas na área técnica. Primeira mulher a embarcar em uma plataforma da Petrobras, frequentemente era a única mulher nas reuniões. A resposta, diz, foi investir em preparo técnico e resultados. “Quando você é minoria, tem de trabalhar nas falhas do sistema”, afirma Sylvia, ao resumir uma lição que considera importante para sua trajetória em um ambiente predominantemente masculino.
A necessidade de afirmar competência também marcou a carreira de Renata Baruzzi. Em uma reunião em que era a única gerente-geral mulher, ouviu de um participante: “Aqui, minha senhora, a gente está na engenharia.” “É mesmo, meu senhor? Eu pensei que aqui a gente estivesse na Petrobras”, respondeu.
Angélica Laureano, primeira mulher inspetora de equipamentos da estatal, trabalhou em uma época em que as plataformas nem sempre tinham estrutura para receber mulheres. Ela afirma que suas opiniões eram, por vezes, mais questionadas do que as dos colegas homens. A estratégia era buscar “soluções, e não justificativas”.
As cinco executivas concordam que a maior presença feminina na alta administração produz efeitos que vão além da representatividade.
Magda afirma que, ao formar sua equipe, buscou alinhamento de propósito, e não uma divisão por gênero.
O resultado foi uma diretoria paritária, que ela considera parte do legado de sua gestão.
Para Sylvia, a diversidade amplia repertórios, fortalece a escuta e melhora os debates.
A presença de uma mulher na presidência, diz Renata, tornou o ambiente “mais acolhedor e confortável” para que outras profissionais se posicionem.
Angélica pondera que o avanço dependerá também da ampliação da presença feminina nas áreas técnicas e da remoção de barreiras relacionadas à oportunidade e à confiança. Ela defende garantir às mulheres “direito à voz, ao protagonismo e aos espaços de decisão”.
É esse efeito multiplicador que mais chama a atenção de Clarice. “Vocês não têm noção do tamanho do impacto e do acolhimento que nós, mulheres, temos pelo trabalho que estão realizando. Não desistam”, afirma. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!