Quinta-feira, 25 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 6 de fevereiro de 2024
Perfis registrados nos Estados Unidos (EUA) participaram ativamente da convocação para a invasão às sedes dos três Poderes em oito de janeiro do ano passado. É o que aponta uma pesquisa da Universidade do Sul da Flórida (USF) que utilizou como filtro as hashtags “BrazilianSpring” e “Festa da Selma” – código usado para espalhar e abordar, sem alarde, a manifestação em Brasília.
A análise começou quando os ataques golpistas estavam acontecendo em Brasília (DF). Foram mapeados mais de 37 mil tuítes publicados nos Estados Unidos e no Brasil, aponta o portal NSC Total.
Os pesquisadores utilizaram uma tecnologia de Inteligência Artificial chamada Botomer para detectar robôs e avaliar somente usuários reais. Dentre os dez perfis que tiveram mais influência no Twitter, três estavam nos EUA – em Orlando, Nova Jersey e na Califórnia –, enquanto os demais eram brasileiros.
Em seguida, os pesquisadores utilizaram a ferramenta Page Rank para avaliar os usuários mais “retuitados”, ou seja, que serviram de “ponte” para circular a informação da manifestação.
Nesta análise, pelo menos quatro dos dez perfis mais influentes estavam fora do Brasil – na Rússia, no Reino Unido, e dois nos Estados Unidos, em Miami e na Flórida. Três outras contas não puderam ter a localização validada pelo programa.
“Orlando e Miami, na Flórida, foram locais proeminentes onde ocorreram quantidades significativas de mensagens no Twitter relacionadas à insurreição brasileira antes e no dia dos ataques”, disse Joshua Scacco, autor da pesquisa e chefe do Centro de Democracia Sustentável da universidade, à CNN.
Mesmo com poucos seguidores, contas de brasileiros que moram no Estado da Flórida tiveram postagens muito compartilhadas entre apoiadores do 8 de janeiro. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estava hospedado em um condomínio em Orlando na semana da invasão às sedes dos três Poderes.
Com menos de seis mil seguidores, um perfil localizado em Orlando que se apresenta como “anti-esquerda eleitor de Bolsonaro” foi a conta com maior relevância como dissipador do código.
“A localização das contas indica que os autores das mensagens estavam conectados a locações nos Estados Unidos. Cidades que tiveram mais contas ativas incluem Miami, Orlando, Washington, Nova York, Boston e Los Angeles”, apontaram os pesquisadores.
Os estudiosos avaliam que, caso essas contas sejam tiradas do ar, as redes de desinformação sofreriam um forte abalo, ainda que possam ser reconstruídas.
“As democracias nas Américas, incluindo no Brasil e nos Estados Unidos, continuam frágeis e devem continuar a ser promovidas. As pessoas precisam compreender é que a democracia não é uma garantia e deve ser trabalhada ativamente para garantir que todos se sintam representados e estejam representados” afirmou Scacco à CNN.
“Festa da Selma”
Dias antes dos atos extremistas e em paralelo ao silêncio do ex-presidente Bolsonaro, que se limitava, naquela altura, a fazer postagens dúbias em seus perfis, bolsonaristas mais engajados utilizaram a expressão “Festa da Selma” – uma possível referência, entre outros símbolos, à saudação militar “selva” – para organizar a manifestação.
No campo simbólico, o código destinado aos entendedores da linguagem dos patriotas serviu ainda para manter viva a esperança na continuidade de Bolsonaro no poder e para engajar essa rede, em meio ao desânimo com a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A dinâmica foi tão relevante para os eventos que culminaram no 8 de janeiro que se transformou, por si só, em uma das frentes de investigação sobre os atos golpistas.
Em agosto, a Polícia Federal deflagrou uma fase da Operação Lesa Pátria para mirar suspeitos de fomentar o movimento ancorado no código bolsonarista. Foram cumpridos, na ocasião, dez mandados de prisão e outros 16 de busca e apreensão.
Segundo a apuração da PF, a expressão foi utilizada “para convidar e organizar o transporte para as invasões” e “serviu para compartilhar coordenadas e instruções detalhadas para os atos”. As informações são do jornal O Globo.
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