Sábado, 30 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 5 de julho de 2021
A aplicação de duas doses de vacina contra a covid falhou em estimular a produção de anticorpos para o vírus no sistema imunológico de Esther Jones, uma enfermeira da zona rural de Oregon, nos Estados Unidos. Mas após duas injeções da Pfizer-Biontech, ela buscou uma terceira, desta vez do imunizante da Moderna, e obteve êxito.
Os exames de sangue revelaram uma resposta razoável, embora inferior ao que seria detectado em pessoas saudáveis. No mês passado, ela ainda recebeu uma quarta dose, na esperança de aumentar ainda mais os níveis de proteção.
Com 45 anos, Jones fez um transplante de rim em 2010. Para evitar a rejeição do órgão, ela toma medicamentos que suprimem sua resposta imunológica. Ela esperava enfrentar problemas para responder a uma vacina contra a covid e se inscreveu em um dos poucos estudos até agora para testar a utilidade de uma terceira dose em pessoas com defesas enfraquecidas.
Desde abril, os profissionais de saúde na França têm aplicado rotineiramente uma terceira injeção em pessoas com determinadas condições. O número de receptores de transplantes de órgãos com anticorpos aumentou para 68% quatro semanas após a terceira dose, em comparação com 40% após a segunda, relatou recentemente um grupo de pesquisadores do país europeu.
O estudo no qual Jones se inscreveu encontrou resultados semelhantes em 30 receptores de transplante de órgãos que obtiveram a terceira dose por conta própria.
Estar vulnerável à infecção mesmo após a vacinação é “muito assustador e frustrante” para pessoas imunocomprometidas, disse Dorry Segev, cirurgião de transplante da Universidade Johns Hopkins, que liderou o estudo.
Nos Estados Unidos não há esforço conjunto de agências federais ou fabricantes de vacinas para testar essa abordagem. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a Food and Drug Administration (FDA) e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) não recomendam a realização de testes para descobrir quem está protegido.
Enquanto isso, cientistas estão frustrados pelas regras que limitam o acesso às vacinas.
“Já deveria haver um estudo nacional examinando pacientes pós-transplante recebendo doses de reforço. Não deveria ser nossa pequena equipe tentando descobrir isso”, questiona o oncologista Balazs Halmos, do Centro Médico Montefiore, em Nova York, e que liderou um estudo mostrando que alguns pacientes com câncer não respondem aos imunizantes.
A lista de possíveis causas para o comprometimento do sistema imune é longa: alguns tipos de câncer, transplantes de órgãos, doença hepática crônica, insuficiência renal e diálise, e uso de medicamentos como Rituxan, esteroides e metotrexato, que são tomados por pacientes com distúrbios desde artrite reumatoide e psoríase até algumas formas de câncer.
“Essas são as pessoas que estão sendo deixadas para trás”, disse Jose U. Scher, reumatologista da NYU Langone Health que liderou um estudo sobre o efeito do medicamento metotrexato nas vacinas.
Nem todas as pessoas que apresentam um desses fatores de risco são afetadas. Mas, sem mais pesquisas, é impossível saber quem pode precisar de doses extras das vacinas e quantas. Além do risco da covid, há evidências de que a baixa imunidade pode permitir que o coronavírus continue a se replicar no corpo dessas pessoas por longos períodos, podendo levar a novas variantes.
Uma infusão de anticorpos monoclonais pode ajudar algumas pessoas que não produzem anticorpos por conta própria – mas, novamente, a ideia não está sendo totalmente explorada, disse John Moore, virologista da Weill Cornell Medicine, também em Nova York.
“O uso de anticorpos monoclonais faz muito sentido para este grupo de pessoas, por isso gostaria de ver as empresas mais ativas nesta área. Apoio ou pressão do governo também ajudaria”, afirmou.
Precedente
A abordagem da terceira dose tem amplo apoio entre os pesquisadores porque há um precedente claro. Pessoas imunocomprometidas recebem doses de reforço de vacinas para hepatite B e influenza, por exemplo.
E sabe-se que descontinuar o uso do metotrexato após receber uma vacina contra a gripe melhora a potência da vacina – evidência que obrigou o Colégio Americano de Reumatologia a recomendar a pausa do uso do medicamento por uma semana antes de ser imunizado contra a covid.
Vários estudos indicaram que uma terceira dose da vacina contra a covid-19 pode ser bem-sucedida em pacientes que não tinham anticorpos detectáveis após a primeira ou a segunda dose. Mas a pesquisa está atrasada.
A Moderna está se preparando para testar uma terceira dose em 120 receptores de transplantes de órgãos, e a Pfizer – que produz alguns medicamentos imunossupressores – está planejando um estudo com 180 adultos e 180 crianças com problemas imunológicos.
As empresas recusaram pelo menos duas equipes independentes que esperavam estudar os efeitos de uma terceira dose. As informações são do jornal “The New York Times”.
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