Quinta-feira, 05 de março de 2026
Por Redação O Sul | 5 de março de 2026
Propina era cobrada para encerrar inquéritos contra investigados por suspeita de crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.
Foto: DivulgaçãoTrocas de áudios e mensagens de celulares apreendidos por autoridades mostram que policiais civis de São Paulo cobravam até R$ 33 milhões em propina para encerrar inquéritos contra investigados por suspeita de crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.
“Eu fui até a delegacia, tá? É referente a uma transferência de [R$ ]33 milhões”, diz num áudio um dos alvos do Ministério Público (MP), Polícia Federal (PF) e Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo. “Ali naquela delegacia o delegado é ‘parceiraço’ meu, tá? Você quer que eu faça alguma coisa lá? Tô…Vou aguardar a orientação tua, tá bom?”
Os três órgãos realizaram nesta quinta-feira (5) a Operação Bazzar para prender pessoas suspeitas de integrarem um esquema de corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro que ocorria dentro de departamentos estratégicos da Polícia Civil paulista.
Até o início da tarde desta quinta, nove investigados tinham sido presos, entre eles um delegado, investigadores, doleira e advogado. Os agentes públicos detidos também irão responder por corrupção e lavagem de dinheiro, assim como os doleiros, que eram investigados pelos mesmos crime e tiveram os inquéritos travados após pagamentos de propina.
“Segundo o Dr aqui: recebeu mais de [R$] 20 milhões”, diz mensagem de texto enviada por um outro alvo da operação. Dr é a abreviação de “doutor”, que segundo a PF, trata-se de um delegado.
A investigação, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, identificou a participação de policiais do Departamento de Investigações Criminais (Deic) e do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).
As extorsões cometidas pelos agentes contra os investigados ocorriam no hangar do Serviço Aerotático da Polícia Civil, no Campo de Marte, e também no 16º Distrito Policial (DP), Vila Clementino _depois alguns dos policiais de lá foram atuar no 35º DP, Jabaquara, onde a corrupção seguiu.
Além de policiais, advogados e operadores financeiros participavam do esquema criminoso, de acordo com a Polícia Federal.
“Tem como a gente falar com esse pessoal, pra…pra…para saber ‘que pé’ que está esse negócio? Que os cara pediram [R$] 5 milhões. Negócio…assim…absurdo…pra quem foi lá. E a gente precisava saber do problema”, diz mais um alvo da operação num áudio enviado para um comparsa.
Nos diálogos encontrados nos celulares apreendidos também há menção a pagamentos fracionados de R$ 10 mil, R$ 40 mil, algo em torno de R$ 100 mil e R$ 700 mil para os policiais corruptos.
“Anota aí para mim que eu dei [R$] 100 mil pro Deic esses dias, eu não sei se você anotou …. e ontem foi mais [R$] 110 [mil]… são [R$] 220 mil que eu dei pro Deic aí, anota aí, tá?”, fala outro investigado em mais um áudio.
De acordo com a Justiça, o grupo teria transformado delegacias especializadas em um centro de negociações para garantir a impunidade de criminosos.
“O cara vai trazer aqui um inquérito para a gente ver que falaram que a gente tá fodido lá no 16º [DP]”, afirmou outro alvo numa troca de mensagens. Ele diz que um policial vinculado à delegacia queria cobrar propina para encerrar um inquérito.
Entre as medidas autorizadas pela Justiça estão 11 mandados de prisões preventivas, 23 mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens e valores dos investigados.
Foram presos os policiais civis: José Eduardo da Silva (delegado do 35º DP); Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (investigador do DPPC que atua na 1ª Delegacia de Combate à Corrupção); Rogério Coichev Teixeira (investigador do Serviço Aerotático); Ciro Borges Magalhães Ferraz (escrivão no 35º DP).
Também foi presa a doleira Meire Bonfim da Silva Poza, e outros investigados ligados aos policiais e doleiros: Cléber Azevedo dos Santos; Robson Martins de Souza; Antônio Carlos Ubaldo Júnior, Marlon Antonio Fontana (advogado).
O esquema funcionava, basicamente, de duas formas:
* policiais pediam relatórios de inteligência financeira (RIFs) sobre potenciais alvos de cobrança de propina. A partir dos relatórios que recebiam, mandavam intimações e cobravam dinheiro para não dar andamento em investigações.
* doleiros que tomavam conhecimento de investigações ofereciam propina para que os trabalhos parassem. Foram identificadas destruição de provas, como trocas de HDs apreendidos por dispositivos vazios.
* A investigação aponta que a organização criminosa utilizava métodos sofisticados para ocultar a origem de recursos ilícitos, incluindo o uso de empresas de fachada e a simulação de operações de importação.
Um dos pontos centrais do esquema seria a conversão de dinheiro em espécie em créditos de vales-refeição, operada por meio de estabelecimentos comerciais fictícios.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da operação e que “a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades”.
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