Terça-feira, 18 de Maio de 2021

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Política “Políticos temem que a minha candidatura à Presidência da República seja levada a sério”, diz o humorista Danilo Gentili

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"O que precisamos é de pessoas de boa vontade dispostas a aplacar o incêndio", diz Gentili. (Foto: Alan Santos/PR)

Nas últimas semanas, um nome improvável passou a figurar entre os possíveis candidatos à Presidência em 2022: o do apresentador e humorista Danilo Gentili. A ideia, segundo ele, surgiu como uma brincadeira nas redes sociais, mas ganhou corpo no início de abril com a divulgação de uma pesquisa encomendada pelo Movimento Brasil Livre (MBL), na qual aparece em terceiro lugar na corrida presidencial, atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente Jair Bolsonaro e empatado com o apresentador Luciano Huck, o governador de São Paulo, João Doria, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e o ex-ministro Ciro Gomes, com 4% das intenções de voto. Foi turbinada também pela afirmação do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro – ele próprio tido como presidenciável, apesar de suas negativas a respeito do assunto – de que daria o seu voto a Gentili no pleito.

Em entrevista ao Estado de S. Paulo, feita por e-mail a seu pedido, Gentili, de 41 anos, diz que entrar na política seria “um sacrifício” para ele, mas não descarta a possibilidade de participar da disputa, com o apoio do MBL, se não surgirem “alternativas melhores”. Considerado um adepto da direita, Gentili afirma ainda que, no momento, “com a casa pegando fogo”, ficar discutindo liberalismo “é um luxo”. “O que precisamos é de pessoas com boa vontade que estejam dispostas a se arriscar e a pegar alguns baldes para tentar aplacar o incêndio.”

A quem acredita que a sua eventual candidatura faria parte do folclore político nacional, Gentili manda um recado: “Quando faço as minhas piadas, os políticos me levam muito a sério, a ponto de eu colecionar pedidos de prisão e de censura vindos deles. Então, acho que eles é que temem que a minha candidatura seja levada a sério e não o contrário.”

1-Nas últimas semanas, a informação de que o sr. está discutindo a possibilidade de ser candidato à Presidência em 2022 ganhou força nas redes sociais e na mídia. Como surgiu essa ideia? Em que pé está essa articulação?

Foi um movimento espontâneo, que surgiu quando a Câmara pediu uma nova prisão contra mim (por uma publicação nas redes sociais que supostamente incitava a violência contra os deputados durante as discussões da imunidade parlamentar). Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Desde os anos do PT, eles fazem isso. Hoje, qualquer coisa que eu faça tem gente escrevendo “Danilo 2022”. No principio, eu ignorei. Como não parou, comecei a brincar de volta. Estou me divertindo um pouco com isso na internet. Até o momento, essa é praticamente a articulação que tem sido feita.

2-Numa pesquisa encomendada pelo MBL, divulgada em 6 de abril, o sr. apareceu em 3ª lugar na corrida presidencial, atrás de Lula e Bolsonaro e empatado com Huck, Doria, Mandetta e Ciro, com 4% das intenções de voto. O resultado o animou a ser candidato?

Não é difícil perceber que a maior parte dos brasileiros sonha em entrar na política para ganhar dinheiro ou ficar famoso. O meu sonho sempre foi o oposto. Sempre sonhei em viver num país com menos política – e, por ironia, ganhei dinheiro e fiquei famoso. Então, entrar num projeto político para mim seria um sacrifício, não um passo carreirista. Na política, eu teria que conviver com políticos, ganharia muito menos dinheiro do que ganho hoje e também comprometeria a minha fama, ou seja, seria só prejuízo para mim. Entrar na política para mim seria um sacrifício, como é um sacrifício alguém ir para a guerra. Mas as pessoas vão para a guerra quando percebem que o que amam está sob ameaça e não lhes resta mais alternativa. Agora, só dá para pensar numa coisa dessas se tiver os aliados e as estratégias certas. Sinceramente, espero que surjam alternativas melhores. Eu gostaria muito de enxergar boas alternativas para jamais precisar pensar nisso.

3-O ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro afirmou na semana passada que o sr. teria o voto dele, se fosse candidato. Como recebeu a declaração de Moro?

Eu confesso que fiquei feliz, pois também votaria nele. Talvez ele seja um dos únicos em quem eu votaria hoje.

4-O sr. tem uma grande ligação com o MBL, que pretende agregar os candidatos do movimento em 2022 numa única legenda, e poderia puxar muitos votos para eles. O que pensa da ideia de ser candidato à Presidência com apoio do MBL?

Na verdade, sou amigo deles antes de o MBL existir. Conheci o (deputado) Kim (Kataguiri, um dos líderes do grupo), numa página de memes da internet anos antes de o MBL surgir. Ninguém imaginava na época que tudo isso aconteceria e que ele seria deputado. Fico feliz porque a atuação dele até o momento não decepciona nem um pouco. Acho que ele é, disparado, o melhor parlamentar da Câmara. Ele é que deveria ser o candidato a presidente do MBL, mas ainda não tem idade para isso (tem 25 anos e a legislação exige no mínimo 35). Enquanto o MBL continuar demonstrando uma boa atuação como a do Kim, eles podem contar, sem dúvida, com a minha simpatia.

5-Como o sr. vê a possibilidade de a direita democrática e liberal ter um candidato próprio na eleição, como alternativa a Bolsonaro, ao centro e a Lula e outros candidatos de esquerda?

Sinceramente, acredito que ficar discutindo direita ou liberalismo no momento é um luxo que devemos deixar para a Inglaterra ou para os Estados Unidos. Aqui, o que nós temos é uma casa pegando fogo. Quando a casa pega fogo, você não tem tempo para discutir a decoração. O que precisamos é de pessoas com boa vontade que estejam dispostas a se arriscar e a pegar alguns baldes para tentar aplacar o incêndio. Quando você tem uma casa habitada por uma classe de saqueadores, eles aumentam o incêndio para poderem roubar mais. As pessoas precisam entender que, no fim das contas, essa tarefa de apagar o fogo ficará para nós, pessoas comuns. Então, eu penso que o Brasil precisa acreditar menos na classe política e olhar mais para “nós, o povo”. Foi a política que nos trouxe até aqui.

6-O que o sr. pensa do Partido Novo? O sr. lançaria a sua candidatura pelo Novo, se houver possibilidade?

Eu não ligo para partidos, porque fica muito fácil qualquer partido ser aparelhado. Mas eu acredito na boa vontade do indivíduo e gosto muito do (João) Amoedo (fundador do Novo e candidato à Presidência em 2018). Enxergo nele caráter e sinceridade. É um cara competente e me passa credibilidade. Ele saiu da sociedade civil e não é um político carreirista. A exemplo do Sérgio Moro, ele é um dos poucos que teriam o meu voto.

7-Quais seriam as suas principais bandeiras numa eventual campanha à Presidência?

A minha principal bandeira é a realidade. Dentro dessa realidade limitadora, eu colocaria os dois pés no chão e procuraria entender tudo o que pode ser feito antes de prometer alguma coisa.

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