Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020

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Colunistas Por que ninguém se espanta com o preço do orégano?

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Nunca somamos as pequenas coisas. Por quê?

Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Nunca somamos as pequenas coisas. Por quê? (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Um amigo mandou-me um cálculo. Comprou um saquinho de orégano de 3g por R$ 1,99. Barato, não? Lego engano. O quilo sai por incríveis R$ 633,33. Todos nos enganam fazendo essas embalagens pequenas e fazendo parecer que é barato e bom. E vão comendo pelas beiradas… Esgarçando aos poucos. Tinta para impressora parece barato… Vendida em pequeníssimas porções. Fosse por quilo, duvido que alguém compraria. Custa R$ 13.575,00. Bom, a champagne Veuve Clicquot custa só R$ 1,29 por mililitro (é sarcasmo!).

Assim é o nosso cotidiano. Vemos a árvore e não damos conta da floresta. E de seus perigos. Somos enganados pelas companhias telefônicas, pelos bares dos aeroportos, pelos taxistas, pelos azuizinhos, pela EPTC, pela Prefeitura, pelos governos, pelas promessas de segurança pública… Todos os dias.

E nem nos damos conta. Nunca somamos as pequenas coisas. Por quê? Porque a grande maioria não compra Veuve Clicquot. Na verdade, nem pensamos em comprar a tal champagne porque ela não é vendida (só) a R$ 1,29 o mililitro. Talvez se fosse vendida em drops, compraríamos. Mas compramos o orégano e as ligações telefônicas.

Mesmo na pandemia, os estacionamentos nos esfolam cotidianamente. Estacionei meu carro no Posto que fica ao lado Praça Júlio de Castilhos, na 24 de outubro. O carro ficou 5 horas. Custou 70 reais.

Muitos estacionamentos já não aceitam cartão! Só dinheiro! Nas estradas, não conseguimos andar. Mesmo na pandemia, continua a esculhambação na BR-116 no trecho São Leopoldo até Novo Hamburgo.

Mas é um engarrafamento que dura só, cada dia, 30 minutos. Ah, bom. Tudo em pílulas. Compramos em pílulas e não calculamos o preço do “quilograma social”.

Pós-verdades

De algum (ou todo) modo, isso se liga aos tempos atuais. Uso a ferramenta “redes sociais” para divulgação de meus livros, artigos e colunas que escrevo. De algum modo, a pós-modernidade deve servir para alguma coisa, além de alienar as pessoas.

As redes sociais, como qualquer ferramental, servem para o bem e servem para o mal. É como a pólvora, o álcool etc. Platão dizia que a linguagem é um bálsamo… ou um veneno. Embora os debates sejam frágeis, as redes sociais me ajudam.

Claro que os comentários não passam de cinco ou dez linhas. Mas, vá lá. É melhor do que escrever uma carta e ir ao correio postá-la. Reconheço isso. Reconheço também que, por vezes, eu mesmo exagero. Já coloquei coisas nas redes, que, penso, não eram necessárias. Eu mesmo não sei o limite.

Não podemos nos eximir de discutir a nossa inserção nessa pós-modernidade (que não se sabe bem o que é). Assim:

– Essa “coisa” de que o mundo só existe se for fotografado ou registrado é ou não é uma alienação?

– Por que eu devo ficar sabendo do prato que você comeu ontem ou vai comer hoje? Imaginemos que a cada dia cada um dos bilhões de facebookeanos e instagranianos acorde e poste: fui ao banheiro, escovei os dentes, deu uma urinada, depois fiz não sei o que e agora estou tomando café da marca tal, comendo meio brioche e agora vou….

-Transformamos nossa vida em narrativas?

– Se não narramos o mundo, ele não mais existe? O que é a existência, então?

– Ao mesmo tempo, todos se queixam de invasão de privacidade. Mas são os primeiros a mostrar até as calcinhas ou as cuecas para o mundo todo; já vi postagem de uma pessoa escovando os dentes. E agora no Instagram, então…Bah!

– Por que será que queremos mostrar nossas entranhas?

– Isso não transforma nossa relação com o mundo em uma coisa explícita-tipo-pornográfica, em vez de erótica (eros-vida)?

E agora tem o TikTok. Vi outro dia advogadas fazendo publicidade. Duas vezes Bah!

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