Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 12 de março de 2016
Se a engenheira Glaucia Cabral fosse uma celebridade, seria a Angelina Jolie. Se uma palavra a definisse, escolheria “amor”. Se alguém a julgasse pela aparência, lhe daria 36 anos, seis a menos do que a realidade. Todos os dilemas e soluções vêm de testes que se multiplicam nas redes sociais, exigindo apenas alguma imaginação e poucos cliques. Para muitas pessoas – Glaucia, inclusive –, trata-se apenas de um passatempo. Mas uma rede de psicólogos que se dedica ao estudo da internet acredita que, por trás do hobby, há a busca por respostas muito mais profundas, como quem somos, como gostaríamos de ser e como queremos ser vistos pelos outros.
Pelos testes, a psicóloga Ana Paula Cardoso poderia morar na França. E se tiver filhos, serão dois meninos. Sua alma gêmea é seu noivo. Os resultados dos três testes a agradam, mas ela sabe que esta é mesmo a única função dos questionários. “É só moda, uma nova roupagem dos testes das revistas de adolescentes”, avalia.
O professor de psicologia Pedro Paulo Gastalho de Bicalho acredita que os adeptos da brincadeira tentam usá-la para definir sua identidade. O público busca ali uma forma de terapia, mesmo sabendo que está diante de perguntas sem fundamentação científica. “Se você quiser saber a sua altura, usará uma fita métrica. Para entender melhor sobre você, não há uma lógica direta. A psicologia é definida por critérios subjetivos. Por isso há uma aura de curiosidade”, justifica. “A necessidade de autoconhecimento nos acompanha desde os primórdios. Vivemos a partir de situações como desejo e escolha. A partir daí, sabemos mais sobre a nossa identidade”, destaca. “Somos pessoas em eterna transformação. Por isso fazemos teste atrás de teste.”
A compreensão sobre si próprio não é a única função dos testes. Seu outro papel, igualmente importante, é divulgar os resultados nas mídias sociais. Entre essas duas tarefas, pode surgir uma diferença abissal.
Larry Rosen, professor da Universidade do Estado da Califórnia (EUA) e especialista em psicologia da tecnologia, denuncia a propensão dos internautas a distorcer suas características pessoais em busca de maior aceitação. “Nas redes sociais, são todos mais felizes e bem-sucedidos! Os estudos mostram uma preocupação crescente sobre a forma como nos apresentamos na internet. Em diversas vezes postamos apenas o que nos faz parecer pessoas melhores. Temos, então, duas imagens: a ‘real’ e a ‘ideal’”, compara Rosen. Ele é autor de livros como “iDisorder” e “Technostress”, sobre como a tecnologia mudou a capacidade do cérebro de processar informações.
Graham Jones, psicólogo e especialista em comportamento e uso da internet, considera que os testes são adotados como pré-requisito para o internauta eleger que informações deseja dividir com cada pessoa. Assim, serviriam como um filtro supostamente sofisticado para diferenciar amigos de conhecidos. “Gostamos de saber que tipo de pessoa nós somos e como são os outros. Isso se deve à inerente necessidade humana de classificações”, assinala. Rosen também julga que os exercícios podem provocar consequências à saúde mental no longo prazo.
Danos reais.
Os internautas que restringem sua rede de relacionamentos à internet, e que recorrem à consulta de testes para definir sua imagem e a de outras pessoas, são mais frágeis ao contato no “mundo real”, muito mais complexo e difícil de dominar. “Com os questionários, ouvimos apenas o que nos interessa”, explica Bicalho. “O maior dano à saúde mental é que deixamos de perceber que o mundo não é feito de elogios. Precisamos ouvir críticas sobre nós mesmos. Se buscarmos incessantemente afirmações positivas sobre nós, ficaremos cada vez mais suscetíveis ao fracasso.” O reinado dos questionários não deve acabar tão cedo, garante o psicólogo. Um de seus pilares é a tecnologia: ela proporciona que uma multidão possa recorrer à brincadeira no celular, em locais onde poderiam conhecer outras pessoas. (Folhapress)
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