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Saúde Prescrição de ivermectina dispara nos Estados Unidos após Mel Gibson associá-la à cura do câncer

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Ator disse que três amigos teriam se recuperado de câncer em estágio avançado após utilizarem o medicamento. (Foto: Reprodução/Instagram)

As prescrições de ivermectina para tratamento de câncer mais que dobraram nos Estados Unidos após o ator Mel Gibson afirmar, em janeiro do ano passado, que três amigos teriam se recuperado de câncer em estágio avançado após utilizarem o medicamento. O dado faz parte de um estudo publicado na revista JAMA Network Open.

O levantamento, realizado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), aponta que, embora a ivermectina e medicamentos benzimidazólicos, como o fenbendazol (também mencionado pelo ator na entrevista), tenham demonstrado atividade anticancerígena em estudos laboratoriais e testes em animais, nenhum ensaio clínico comprovou que esses remédios sejam seguros ou eficazes no tratamento do câncer em humanos.

No Brasil, a ivermectina é aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de algumas infecções parasitárias. Já o fenbendazol é um antiparasitário de uso veterinário.

De acordo com Clarissa Baldotto, oncologista clínica e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), estudos realizados em células de laboratório ou em modelos animais representam apenas uma etapa inicial da pesquisa científica e não são suficientes para comprovar eficácia ou segurança em seres humanos.

“Muitas substâncias que parecem promissoras em laboratório não se confirmam em estudos clínicos. Apenas uma pequena parte das moléculas que entram em pesquisa pré-clínica, em laboratório e animais, chega a ser testada em humanos. E, mesmo após alcançar a fase clínica, a chance média de chegar ao mercado costuma variar entre 5% e 10%”, esclarece.

Segundo a especialista, é cada vez mais comum pacientes chegarem aos consultórios fazendo referência a conteúdos vistos em redes sociais, como vídeos, relatos pessoais e promessas de tratamentos alternativos.

O papel do profissional de saúde, na visão de Clarissa, é acolher as dúvidas dos pacientes, explicar a diferença entre hipótese científica e evidência clínica, avaliar riscos e orientar com base em dados confiáveis.

“O paciente não deve ser tratado com julgamento, mas com acolhimento e informação qualificada. A melhor resposta à desinformação não é simplesmente dizer ‘não’, mas explicar por que determinada intervenção ainda não pode ser considerada um tratamento e quais são os potenciais riscos envolvidos”, afirma a oncologista.

Riscos associados

De acordo com a publicação, a principal preocupação é que, ao recorrem a tratamentos não comprovados, os pacientes acabem atrasando ou abandonando terapias convencionais cuja eficácia já foi demonstrada cientificamente.

“Quando as prescrições de um tratamento oncológico não comprovado mais do que dobram após um único podcast, especialmente entre homens e pessoas do Sul, isso levanta a preocupação de que pacientes possam estar pulando ou adiando tratamentos que sabemos que funcionam em favor de algo cuja eficácia não foi comprovada”, afirmou John N. Mafi, autor sênior do estudo e professor associado de medicina na Universidade da Califórnia em Los Angeles, em comunicado de imprensa.

Segundo Clarissa, esse comportamento pode comprometer diretamente o tratamento, a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes.

“Em oncologia, tempo e sequência de tratamento importam muito. Além disso, há riscos de efeitos colaterais, interações medicamentosas, uso de doses inadequadas, falsa sensação de segurança e perda de oportunidade terapêutica”, completa a especialista.

Segundo a oncologista da SBOC, pacientes devem desconfiar de promessas de cura rápida, tratamentos milagrosos, relatos isolados sem respaldo científico, teorias conspiratórias contra a medicina ou recomendações feitas por pessoas sem formação na área da saúde.

“O câncer é uma doença complexa, e avançamos muito nos tratamentos específicos e personalizados. Por isso, devemos desconfiar de soluções fáceis demais. Informações confiáveis geralmente vêm de sociedades médicas, instituições acadêmicas, órgãos regulatórios, publicações científicas revisadas por pares e, principalmente, da discussão com a equipe médica”, conclui Clarissa. (Com informações de O Estado de S. Paulo)

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