Domingo, 12 de Julho de 2020

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Brasil Priorizado pelo Ministério da Educação, o uso de método fônico no ensino da leitura e da escrita no Brasil causa divergência entre especialistas

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Ministério não informou valores que serão pagos ou como a bonificação será calculada. (Foto: Reprodução)

O MEC (Ministério da Educação) lançou a PNA (Política Nacional de Alfabetização) em abril, mas, mesmo que seis meses tenham se passado, o tema ainda gera controvérsia. Embora representantes do órgão digam que a PNA não exclui outros métodos, especialistas alegam que, na prática, o MEC prioriza a abordagem fônica.

Durante debate no Educação 360 Encontro Internacional, pesquisadores defenderam que não se deve impor apenas uma ferramenta para promover a alfabetização e enfatizaram a importância de outros instrumentos.

A alfabetização foi elencada como prioridade do governo. No decreto do presidente Jair Bolsonaro, o MEC lista seis componentes a serem trabalhados: consciência fonêmica, instrução fônica sistemática, fluência em leitura oral, desenvolvimento de vocabulário, compreensão de textos e produção de escrita.

Um dos participantes do painel “Alfabetização: a guerra dos métodos”, o educador Renan Sargiani, coordenador geral de Neurociência Cognitiva e Linguística do MEC, argumentou que a abordagem fônica aparece expressa no documento porque é a mais eficiente para ensinar a maioria dos estudantes, considerando aqueles com menor nível socieconômico.

“A instrução fônica pode estar presente em diferentes abordagens. Quando vamos ensinar a ler e escrever, precisamos ensinar o que são as letras e o que elas representam”, argumentou ele. “Letras têm sons, e as pessoas têm que aprender isso de forma explícita ou implícita. No entanto, o que acontece é que muitas vezes isso se dá de forma implícita e não sistemática. Funciona para boa parte das crianças, mas não para a maioria das crianças.”

No método fônico, a alfabetização se dá por meio da associação entre o símbolo (a letra) e seu som (o fonema). A criança aprende a reconhecer o som de cada letra para, a partir daí, aprende a combiná-las de modo a formar sílabas e palavras.

O professor Artur Moraes, do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco, rebateu a tese de Sargiani. De acordo com ele, é impossível que apenas duas áreas do conhecimento, a cognição e a neurociência, sejam suficientes para todo processo educativo envolvido na alfabetização.

“A dificuldade do nosso país em alfabetizar é um problema social gravíssimo. Seria um erro atribuir a apenas dois campos científicos a tarefa de definir o que fazer na alfabetização. É necessário recrutar a História, a antropologia e psicologias que não são cognitivas. A política nacional decretada sem debate vem no contexto mais amplo de um autoritarismo que quer escolas militarizadas”, criticou Moraes, acrescentando que a mecanização na maneira como o método fônico vem sendo usado é prejudicial ao sistema educacional.

Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, o Brasil tem 11,3 milhões de analfabetos. Dados da Avaliação Nacional de Alfabetização divulgados em 2017 revelaram que mais da metade dos alunos brasileiros do 3º ano do ensino fundamental têm nível insuficiente em leitura e matemática.

Doutor em Estudos da Linguagem e PhD em Estudos Sociais, Guilherme Cardozo trabalha num programa de alfabetização de Jovens e Adultos desenvolvido pela Universidade Estácio de Sá. Ele reafirma a necessidade de uma comunhão entre os métodos para tentar mitigar esse gargalo na educação brasileira.

“A ação subjetiva é vista como ameaça ao método e à perfeição metodológica. Mas pode haver confluência entre um método fônico e as abordagens construtivistas. Atualmente, há uma disputa de legitimidade entre eles”, disse Cardozo. “Não dá mais para trabalhar apenas racionalmente. É preciso trabalhar as subjetividades. É preciso fazer um espaço de consenso e não de guerra entre métodos. Precisamos desse espaço de consenso na educação, na alfabetização.”

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