Em meio a um panorama de dificuldades e reconstrução desde as enchentes recordes de 2024 no Rio Grande do Sul, os produtores gaúchos de mel estão colhendo uma safra acima da média. A produção estimada para este ano é de 11 mil toneladas, cerca de 22% acima da obtida em anos anteriores à catástrofe climática.
A coordenadora estadual de Apicultura e Meliponicultura da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural/Associação Sulina de Crédito e Assistência (Emater-Ascar) no Rio Grande do Sul, Laila Ribeiro Simon, explica o cenário posterior à safra 2024-2025, que resultou em apenas 3 mil toneladas: “Neste ano, além de uma safra acima do esperado, temos o diferencial em qualidade e composição florística do mel produzido no Estado, com características peculiares”.
Mesmo com a qualidade do produto, o Brasil está abaixo da média mundial de consumo per capita do produto. Por isso, a coordenadora acredita que há potencial a ser explorado, tanto no que se refere ao mel como alimento quanto à suas características medicinais.
Nas regiões mais atingidas pelas enchentes de 2024, a Emater-Ascar tem trabalhado em ações coletivas de recuperação, junto a associações de produtores. Nos Vales do Rio Pardo e do Taquari, há inclusive um projeto em andamento com a cooperativa local de apicultores e que prevê o aporte de mil novas colmeias, com recursos do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (Feaper).
Conforme o extensionista rural Vilson Pitton, de Santa Cruz do Sul, o projeto beneficiará de 14 municípios ao menos 70 apicultores que, nas enchentes de dois anos atrás, perderam todas suas caixas de abelhas localizadas em áreas baixas. ‘Outros aumentarão o volume de produção para que a atividade seja mais rentável”, complementa.
Cautela
O presidente da Associação de Apicultores de Santa Maria (Apismar) e vice-presidente da Federação Apícola e de Meliponicultura do Rio Grande do Sul (Fargs), Patric Arend Luderitz, relata que a região Central do Estado teve uma boa produção de primavera, que há muitos anos não ocorria:
“O clima ajudou e houve troca genética, porque após a enchente houve introdução de rainhas que foram doadas a produtores pela Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), através dos nossos parceiros. Santa Maria foi uma das regiões contempladas e a gente notou um aumento na produtividade das abelhas e colmeias, com uma grande enxameação esse ano”.
A produtividade foi considerada muito boa de setembro a dezembro de 2025 nas matarias silvestres, mas Luderitz observa que no Estado não houve uma supersafra: “Tivemos um pulgãozinho, um piolho dos eucaliptos, na Fronteira e em várias regiões, onde as abelhas não conseguiram aproveitar o néctar”.
No geral, os apicultores permanecem em ritmo recuperação e cautela: “Juntamente com a assistência técnica da Emater, houve um trabalho de força-tarefa em prol dos apicultores e meliponicultores. Então o pessoal conseguiu uma recuperação leve, mas temos muito para recuperar ainda”.
Luderitz alerta para a probabilidade de retroação dessa recuperação devido ao fenômeno climático El Niño: “O aquecimento das águas do Oceano Pacífico pode provocar enchentes, vendavais, um cenário nos preocupa. Por isso, sugerimos aos apicultores e meliponicultores que removam suas caixas para lugares mais altos”.
A projeção de Luderitz é de que nos próximos anos o Rio Grande do Sul recupere sua capacidade produtiva de mel. Para isso, entretanto, é necessário que se prepare para outros eventos climáticos.
(Marcello Campos)
