Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 25 de março de 2021
Sob protesto de estudantes e gritos de ‘Bolsonaro genocida’, o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, visitou nesta quinta-feira (25), a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), onde se reuniu com diretores e professores da instituição.
Em seu discurso para a comunidade acadêmica, o cardiologista adotou tom conciliador e pediu um voto de confiança aos colegas. Disse que está tentando montar uma equipe técnica e que a autonomia do médico está condicionada a “práticas cientificamente aceitas”, mas não respondeu objetivamente se, sob sua gestão, o Ministério da Saúde seguirá apoiando o uso de remédios como a cloroquina e a azitromicina contra a covid, defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro como suposto “tratamento precoce” para a doença, mas que já se mostraram ineficazes contra a doença.
Durante sua fala, o ministro afirmou que sua missão é “conquistar a confiança do presidente” Jair Bolsonaro para subsidiá-lo com as melhores informações para a tomada de decisões. Disse ainda que visitava a FMUSP para aprender, pois vê o local como “casa da ciência”. “E não existe medicina sem ciência”, completou.
Ao final do pronunciamento, porém, a faculdade abriu espaço para perguntas, e um estudante do centro acadêmico da faculdade o questionou se ele se colocaria contra o chamado tratamento precoce ou se manteria o posicionamento “negacionista” do governo federal. Queiroga desconversou e voltou a afirmar que o objetivo é fornecer informações ao presidente.
“Acho que sua pergunta já foi respondida com a minha fala. Cada um de nós temos que colocar um tijolo nessa parede que aqui estamos construindo e a argamassa que solidifica essa parede somos todos nós. Vamos olhar para frente, vamos deixar de gerar calor. O que nós queremos é luz, não calor. Estamos aqui para dialogar com a sociedade brasileira. Eu preciso da colaboração, sobretudo um voto de confiança de cada um de vocês, para que possamos construir um ambiente melhor e para que eu possa ser útil, subsidiar nosso presidente da república com informações que o convençam acerca do melhor caminho a ser seguido. Se eu conseguir fazer isso, a minha missão estará cumprida”, declarou o ministro.
Queiroga deixou no ar como pretende tratar o tema da prescrição dos remédios ineficazes contra a covid. O Conselho Federal de Medicina (CFM) afirma que ainda não há consenso científico sobre o tema e se apoia na questão da autonomia médica para autorizar profissionais a prescreverem as drogas. Embora o ministro tenha dito que a autonomia esteja condicionada a evidências científicas, ele questionou que tipo de evidências seriam aceitas.
“O médico tem um razoável campo para exercer a sua autonomia. A autonomia está condicionada a práticas cientificamente aceitas. O que são práticas cientificamente aceitas? São aquelas que têm nível A? A opinião dos médicos, estudos observacionais, eles não servem?”, questionou.
Queiroga disse que a prioridade do governo federal no momento é conseguir comprar mais vacinas e ampliar a assistência, mas sinalizou ser difícil ampliar a estrutura hospitalar nesse momento de colapso. “O governo está fazendo um esforço para conseguir mais doses de vacina para que possamos impulsionar uma campanha de vacinação. Temos que ter o cuidado também de assistir os pacientes. […] Precisamos implantar mais leitos, mas, se fizermos isso, não teremos insumos como respiradores. Se conseguirmos respiradores, não temos recursos humanos. Se conseguirmos recursos humanos, precisamos treiná-los”, disse.
Ao comentar a reunião realizada na quarta-feira (24) entre representantes dos Três Poderes para uma a formação de uma comissão contra a covid, Queiroga disse ter se sentido “como um jogador que tivesse que bater um pênalti aos 45 minutos do segundo tempo, numa Copa do Mundo, com o Brasil precisando fazer o gol”.
Faixas e cartazes
Durante todo o discurso do ministro, estudantes da faculdade mantiveram protesto nos corredores da faculdade que podia ser ouvido de dentro da sala onde a cerimônia era realizada. Os alunos carregavam faixas e cartazes que chamavam Bolsonaro de genocida, lembravam dos 300 mil mortos pela covid no País, pediam mais vacinas e a adoção imediata do lockdown.
Durante a transmissão ao vivo do evento, a câmera de um dos participantes, identificado na tela como ‘Fora, Bolsonaro’, chegou a transmitir por alguns segundos os atos que ocorriam fora do salão nobre da faculdade.
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