Terça-feira, 12 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 12 de novembro de 2015
Publicação de fotos íntimas como forma de vingança, campanhas de difamação e comentários preconceituosos estão entre as formas de violência enfrentadas cotidianamente por mulheres no mundo virtual. O tema vem ganhando atenção em diversos países e foi assunto de um dos painéis do 10 Fórum de Governança da Internet (IGF 2015), em João Pessoa, na Paraíba. Entre as debatedoras, um consenso: “Você não pode separar as esferas on-line e off-line”, disse Hibah Hussain, da equipe de Políticas Públicas Internacionais da Google. “Não basta tirar um vídeo ou comentário do ar esperando que esse problema sistêmico desapareça. Isso não vai acontecer.”
Por vezes, o assédio on-line é visto como algo menor por não provocar danos físicos, e o debate envolve temas sensíveis, como políticas de privacidade, liberdade de expressão e anonimato. No Google, contou Hibah, equipes locais são contratadas para avaliar centenas de milhares de denúncias diárias. Mesmo assim, definir o que é ou não assédio não é tarefa simples.
Para Jan Moolman, da organização americana Women’s Rights Association for Progressive Communications, o “assédio on-line é uma continuidade da violência de gênero off-line”. Da mesma forma que no “mundo real”, muitas vezes as vítimas não fazem denúncias, seja por acharem que nada irá acontecer, ou por temer retaliações. Um estudo realizado pela instituição com “sobreviventes de violências relacionadas à tecnologia” em sete países mostra que, em 40% dos casos, o autor da violência era conhecido da vítima.
A pesquisa mostrou ainda que a descrença das vítimas na resolução dos assédios faz sentido: 60% dos cerca de mil casos levantados não foram investigados pelas autoridades; e menos de um terço tiveram respostas dos provedores de serviços de internet. “Não é um problema menor. Ele afeta 50% da população mundial”, disse Jan.
E a forma de combater o assédio on-line contra mulheres provoca discórdias. Ellen Strickland, da organização neozelandesa Internet NZ, defende a criação de legislações específicas, que abarquem a nova realidade. O Brasil, no Marco Civil da Internet, fez um grande avanço ao permitir que casos de pornografia de vingança sejam retirados do ar apenas com a notificação da vítima, o que agiliza a resposta.
Por outro lado, Hibah, representando o Google, não acredita que a resposta seja a regulação.
O temor, compartilhado por Gabrielle Guillemin, da ONG Article 19, é que, em nome do combate ao assédio, a liberdade de expressão seja reprimida. Um dos pontos discutidos em relação à segurança na rede é o fim do anonimato. Contudo, é exatamente o anonimato que garante a segurança de ativistas, jornalistas e grupos que combatem governos autoritários.
Taís Araújo recebeu apoio dos internautas.
E, na própria internet, existem iniciativas que buscam reprimir o assédio contra mulheres. A campanha #PrimeiroAssédio e a mobilização em apoio a atriz Taís Araújo, vítima de racismo no Facebook, são exemplos disso. Bishakha Datta, da ONG indiana Point of View, falou sobre a campanha #shametherapist, que expôs a identidade de estupradores na Índia. A ativista também citou o caso de escândalo causado no País pela divulgação de um vídeo íntimo de dois jovens, e que o debate ficou em torno do sexo, e não da proteção da privacidade.
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