Contas no Facebook estão publicando imagens sexualizadas de mulheres geradas por inteligência artificial (IA) para atrair milhões de seguidores. Depois, os direcionam para sites externos como a Shopee e sites de apostas, onde ganham dinheiro com os gastos de usuários. Na maior parte das vezes, não informam que estão lucrando com a atividade. Especialistas avaliam que a prática pode ferir as regras de comunidade da Meta, empresa que controla a rede social, e a legislação vigente no País para publicidade.
A Meta, dona do Facebook, foi procurada, mas não quis comentar o caso. Em nota, a Shopee disse que associados ao programa de afiliados devem avisar sobre o teor publicitário de postagens que direcionam para o e-commerce e que promove campanhas educativas. Também informou que não permite o uso de links em publicações que promovam desinformação ou conteúdos enganosos, e que excluiu as contas de afiliados citadas pela reportagem.
O Estadão Verifica (serviço de checagem de informação do jornal O Estado de S. Paulo) monitorou, durante um mês, 13 perfis com mais de 10,2 milhões de seguidores. As contas postam no feed do Facebook fotos ou vídeos gerados por IA de mulheres com seios e glúteos grandes em roupas justas e com decotes. Há contas que se especializam em um padrão específico: mulheres mais velhas, com deficiência física, indígenas ou negras, entre outros.
As ferramentas SynthID, do Google, e Hive Moderation, que identificam uso de inteligência artificial em imagens, confirmaram a origem artificial do material. Nenhuma das contas monitoradas informa que publica imagens geradas artificialmente.
Entre 10 de fevereiro e 10 de março, as contas passaram de 8,9 milhões para 10,2 milhões de seguidores. As páginas e perfis têm nomes e fotos que simulam uma identidade autêntica. Os nomes femininos não são naturais, como “Renata Resources” (“recursos”, em português) ou “Tóxica Mery”.
Oito das contas monitoradas têm opções de assinatura para acesso a conteúdos exclusivos que variam de R$ 2,59 a R$ 19,90. Ao menos cinco delas postaram, nos stories, links de direcionamento para fora do Facebook, onde lucram com comissões.
O Verifica separou dois perfis no Facebook com imagens geradas por IA que apresentaram um padrão de comportamento. Um redireciona usuários para o site de compras online Shopee, onde ganha comissão pelas transações realizadas. Outro leva os usuários para sites de apostas (as bets) e lucra com a adesão de novos apostadores e com o montante apostado.
O perfil “Renata Resources” posta fotos e vídeos de mulheres quase sempre com uma legenda que parece ser um pedido de amizade na rede social. Em uma postagem, um vídeo mostra uma mulher vestindo roupas de academia. Ela diz: “Oi! Acabei meu treino agora há pouco, vi seu perfil e te enviei uma solicitação de amizade. Você poderia aceitar e se tornar meu amigo?”. O perfil ganhou 200 mil novos seguidores em um mês, passando de 1 milhão para 1,2 milhão.
Nos stories, o perfil posta vídeos das mulheres e um botão que convida a clicar em um link que leva para diferentes lojas no site de vendas online Shopee. A URL gerada usa um ponto de interrogação, mecanismo utilizado em campanhas de publicidade para, entre outras coisas, identificar a origem de tráfego.
A Shopee tem um programa de afiliados que oferece comissões para cada venda válida. Funciona assim: uma pessoa se inscreve no programa e gera um link exclusivo que direciona para produtos no site da empresa. Toda vez que alguém compra algo na Shopee por meio daquele link, o afiliado ganha porcentagem da venda.
Não há, nos stories da “Renata Resources”, nenhum aviso de que se trata de conteúdo publicitário. Isso contraria o que diz o programa de afiliados da Shopee, que avisa os afiliados que eles devem identificar o conteúdo como publicidade de forma “clara” e “visível”. “A identificação inadequada ou a omissão do caráter publicitário poderá resultar na aplicação das medidas previstas neste programa, além de eventuais sanções pelas plataformas e autoridades competentes”, diz o regulamento da plataforma de comércio. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
