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Mundo “Putin não é suicida, nem louco. É um líder autoritário sem freios e contrapesos”, diz professor da Universidade do Alabama

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Vladimir Putin espera consolidar a Ucrânia sob a esfera de influência russa. (Foto: Reprodução)

Após a saída caótica dos EUA do Afeganistão, o presidente russo, Vladimir Putin, provavelmente acreditou ter visto uma janela de oportunidade para insistir em uma antiga demanda dele e da Rússia, a de consolidar a Ucrânia sob a esfera de influência russa. Ao mesmo tempo, também estabelecer um relacionamento especial de Moscou com o restante da Europa e da Otan, além do papel coadjuvante. A avaliação é do historiador George Liber, professor da Universidade do Alabama, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Filho de refugiados ucranianos da 2ª Guerra, é autor de vários livros sobre o país, incluindo Total Wars and the Making of Modern Ukraine, 1914–1954. Leia abaixo trechos da entrevista.

– Putin foi motivado por uma noção de que o governo Biden ficou enfraquecido pela retirada caótica do Afeganistão?A retirada dos EUA provavelmente inspirou Putin. Aquilo que assistimos no Afeganistão foi uma experiência muito dolorosa e triste. Eu acho que as explicações do governo Biden de por que o Taleban assumiu tão rapidamente não convenceram e não são muito coerentes. Minha impressão é que eles não anteciparam isso, os militares americanos sim, mas os funcionários do Departamento de Estado dos EUA não, o que é muito estranho. Então o presidente Putin viu isso e parece ter acreditado que este era um bom momento para pressionar os EUA e a Otan sobre a Ucrânia. Putin tem um interesse de longa data em trazer a Ucrânia de volta para a esfera de influência russa, da União Soviética. Agora, ele viu uma oportunidade. Putin imaginou que o Afeganistão enfraqueceu tanto a administração Biden que quaisquer declarações feitas por ela sobre a Ucrânia ou a Otan não seriam apoiadas pelos outros membros da aliança militar.”

– E ele estava certo?Acredito que o presidente Putin teve uma surpresa desagradável com a resposta mais ou menos unificada. Na maior parte das vezes, tem sido uma resposta unificada contra ele. Putin achou que esta era uma oportunidade não apenas para pressionar a questão da Ucrânia, mas também para pressionar a questão de um relacionamento especial da Rússia com o restante da Europa e da Otan. A Rússia não quer se tornar um Estado com status de copiloto dos EUA. O presidente Putin exagerou. No entanto, ele tem a vantagem de estar geograficamente mais próximo da Ucrânia do que os EUA ou a Otan. A Ucrânia não é membro da Otan e provavelmente não será por muitas décadas. Putin tem uma espécie de vantagem geográfica e ele pode levar seus tanques a qualquer momento e obter alguma vitória e essencialmente paralisar a Ucrânia.”

– Há alguma negociação paralela entre russos e ucranianos?Não acho que haja negociação, mas é uma situação muito complicada. Quando a Rússia diz à Otan que a aliança não pode ter a Ucrânia como membro, ela responde: ‘Bem, você nem é membro e não pode nos dizer o que podemos fazer’. A Otan afirma que é uma decisão da Ucrânia. Por outro lado, os membros da Otan não estão entusiasmados com a perspectiva de a Ucrânia se tornar um de seus membros. A adesão à Otan da Ucrânia traz problemas. Toda a questão da Crimeia, que foi invadida e anexada pela Rússia há oito anos, e áreas separatistas como Donetsk e Luhansk. Esse é um problema, a Otan não está tão interessada em admitir um membro que vai causar-lhe mais problemas do que queria lidar, embora a aliança tenha se tornado tão grande nos últimos anos. Ela se expandiu dramaticamente e agora tem 30 membros, muitos deles, ex-países comunistas. No entanto, a liderança da Otan, em muitos aspectos, é avessa ao risco. Eles não estão interessados em expandir o nível de risco que já possuem. Eles não vão dizer isso nem em particular, mas não estão entusiasmados em aceitar a Ucrânia na Otan.”

– Existe alguma previsão de essa situação se dissipar?A questão que surge é quais são os riscos que Putin vai correr? Não acho que ele seja suicida, nem louco. Como ele é um líder autoritário de um país que não tem freios e contrapesos sobre ele, pode fazer o que quiser. Ele controla a mídia estatal na Rússia e pode explicar o que quiser ao povo russo e a esmagadora maioria vai acreditar nele porque eles não têm nenhuma forma alternativa de informação. Se não há uma mudança de poder, e a mesma pessoa fica no comando por um longo período de tempo, ela acumula bons amigos que lhe dizem coisas boas, que essa pessoa é brilhante, só diz o que ela quer ouvir. E não há ninguém verificando. Com o passar do tempo, Putin talvez tenha aceitado essa própria imagem inflada dele mesmo. Enquanto outros líderes nas democracias precisam sempre tomar cuidado para não perder a opinião pública, ele não tem essa preocupação. Todos os seus adversários estão na cadeia.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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