Domingo, 01 de novembro de 2026
Por Renato Zimmermann | 1 de novembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Na sexta-feira, logo cedo, enquanto estava em trânsito, ouvi uma notícia que me chamou profundamente a atenção: o roubo de aproximadamente 6,4 bilhões de dólares de uma empresa de criptomoedas. Era, segundo as primeiras informações, o maior roubo de ativos digitais da história.
O episódio aconteceu justamente quando eu acabava de concluir a publicação de uma série de seis artigos de opinião sobre o momento de inflexão civilizatória que estamos atravessando. Coincidência ou não, a notícia pareceu materializar algumas das inquietações que procurei compartilhar naquela série.
A empresa atingida foi a Binance, uma das maiores plataformas de negociação de criptomoedas do mundo. O ataque, ocorrido em 29 de outubro, comprometeu carteiras digitais utilizadas pela companhia para movimentar ativos em diferentes redes de blockchain. Grande parte dos valores foi transferida em aproximadamente vinte minutos.
Busquei mais informações e conversei com dois especialistas em segurança cibernética. As explicações trouxeram algum alívio, mas não eliminaram minha preocupação. O que se sabe até agora aponta para uma operação criminosa sofisticada, envolvendo o comprometimento de equipamentos e falhas nos mecanismos de segurança e autorização. Não há evidências de que tenha sido uma inteligência artificial agindo autonomamente. Há, inclusive, suspeitas de envolvimento de um grupo hacker ligado à Coreia do Norte.
Mas parei para pensar na dimensão desse acontecimento.
Se alguém pretendesse roubar 6,4 bilhões de dólares em dinheiro de um banco, quantos caminhões seriam necessários? Se a intenção fosse levar essa mesma fortuna em ouro, quantas toneladas precisariam ser transportadas, quantas pessoas seriam envolvidas e quantos dias seriam necessários para executar a operação?
Nesse caso, bilhões de dólares em ativos digitais foram movimentados em questão de minutos, sem caminhões, cofres ou grandes operações físicas. Estamos falando de uma empresa que deveria oferecer elevados padrões de segurança e confiabilidade. Aproximadamente três bilhões de dólares foram congelados com a ajuda de outras empresas do setor, enquanto a recuperação dos valores restantes ainda era incerta. A Binance anunciou que assumiria os prejuízos dos clientes.
É impressionante. E preocupante.
As criptomoedas, as redes blockchain e a tokenização de ativos fazem parte de uma transformação profunda do sistema financeiro. Não sabemos exatamente quais tecnologias prevalecerão, mas é difícil imaginar o futuro de uma economia cada vez mais digitalizada sem instrumentos de transferência, registro e movimentação de valores digitais. A confiança e a segurança, portanto, não são detalhes técnicos: são condições fundamentais para essa transformação.
E aqui está minha inquietação maior. Enquanto avançamos rapidamente em direção a uma sociedade conectada, com inteligência artificial, agentes autônomos e sistemas capazes de tomar decisões e executar tarefas sem intervenção humana permanente, também aumentam os riscos de vulnerabilidades, manipulações e ataques. As próprias empresas de tecnologia vêm fazendo alertas sobre agentes de inteligência artificial capazes de executar operações complexas e apresentar comportamentos que seus desenvolvedores nem sempre conseguem antecipar.
Não estou afirmando que foi isso que aconteceu na Binance. Estou dizendo que precisamos olhar para o conjunto dessas transformações.
Lembrei-me de Albert Einstein e do profundo arrependimento que manifestou diante do desenvolvimento das armas nucleares. Ele havia participado do alerta ao governo americano sobre a possibilidade de a Alemanha desenvolver uma bomba atômica, mas depois lamentou as consequências daquele caminho. Lembrei também de Santos Dumont, que sonhava com a aviação como instrumento de aproximação entre povos e viu, com tristeza, os aviões serem transformados em máquinas de guerra e destruição.
Quantas vezes a humanidade desenvolve algo extraordinário, capaz de melhorar a vida de milhões de pessoas, para depois utilizá-lo como instrumento de poder, dominação e destruição?
Talvez seja oportuno lembrar também o pensamento de Ailton Krenak. Sua reflexão nos convida a questionar a ideia de progresso que transforma tudo em produção, eficiência e artificialidade, afastando o ser humano da natureza e dos próprios sentidos da existência. Não se trata de rejeitar a ciência ou a tecnologia, mas de questionar uma civilização que passa a acreditar que toda solução está em produzir mais tecnologia, mesmo quando perde de vista aquilo que deveria proteger: a vida.
Confesso que não tenho uma opinião formada sobre onde todas essas transformações vão nos levar. Seria presunçoso afirmar que conhecemos o futuro. O que tenho é a percepção de que estamos atravessando um período extraordinário, talvez uma das maiores mudanças da história humana. Um momento de oportunidades imensas, mas também de riscos que ainda estamos aprendendo a compreender.
Quero continuar otimista. Acredito na capacidade humana de construir uma sociedade mais livre, pacífica, justa e harmoniosa, utilizando o conhecimento e a tecnologia a serviço da vida. Mas otimismo não pode significar ingenuidade, silêncio ou acomodação.
Precisamos manter a vigilância, questionar, participar e ter coragem de apontar aquilo que está errado. Precisamos exigir responsabilidade de governos, empresas e daqueles que desenvolvem tecnologias capazes de interferir diretamente no destino de milhões de pessoas.
Talvez, neste momento, mais do que respostas definitivas, precisemos de serenidade. Que esse período de tantas tensões e incertezas passe logo. Que as pessoas encontrem um pouco de paz, calma e equilíbrio. Que a poeira baixe e que possamos enxergar com mais clareza os caminhos à nossa frente.
A tecnologia continuará avançando. A questão é se a nossa sabedoria, nossa responsabilidade e nossa humanidade conseguirão avançar junto com ela.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética. (Contato: rena.zimm@gmail.com)
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