Domingo, 18 de janeiro de 2026
Por Vera Armando | 14 de janeiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Quando uma criança com deficiência morre, o sofrimento da mãe não termina no luto. Ele apenas começa a ganhar novas camadas de dor. No exato momento em que perde o filho, ela perde também o Benefício de Prestação Continuada, que garantia o mínimo de estabilidade para seguir cuidando da família e de si mesma. Em poucas horas, essa mulher deixa de receber o único apoio financeiro que possuía, depois de anos dedicada integralmente ao cuidado. É uma queda brusca, injusta e desumana. O Estado retira a mão justamente quando ela mais precisa de acolhimento. Fica sem renda, sem rotina, sem propósito, sem estrutura e sem qualquer tipo de amparo para enfrentar o que virá.
Falo sobre isso porque acompanho de perto a realidade dessas mães. Como madrinha do Educandário São João Batista, aqui de Porto Alegre, vejo todos os dias o esforço incansável dessas mulheres que vivem entre consultas, terapias, medicações e noites mal dormidas. Muitas são mães solo, que deixaram carreira, renda e vida social para dedicar cada minuto ao filho que precisa de cuidados permanentes. Elas carregam o mundo nos braços. E quando a perda chega, além da dor que ninguém é capaz de medir, encontram um vácuo total de políticas públicas. A assistência que existia para a criança não se converte em proteção para a mãe que ficou, embora tenha sido ela a responsável por sustentar, com amor e sacrifício, toda a jornada.
O Benefício de Prestação Continuada é essencial para milhares de famílias, porém restrito ao titular. Quando a criança parte, o benefício cessa imediatamente. O Estado fecha a porta e não oferece nenhum período de transição, nenhuma renda emergencial, nenhum suporte psicológico ou social que permita a essa mulher se reorganizar. É uma violência institucional que precisa ser enfrentada.
Por isso anuncio aqui um compromisso firme. A articulação com deputados federais para criar um programa nacional de apoio às mães atípicas após o falecimento de seus filhos. A proposta prevê uma assistência temporária que garanta tempo para que essas mulheres se reestruturem. Defendo também que o governo federal inclua programas específicos de capacitação profissional para que elas possam se reinserir no mercado de trabalho com perspectiva real de autonomia, porque estamos falando de mulheres que dedicaram a vida inteira ao cuidado.
Precisamos de todos nesta causa. Este é um debate que passa pelo INSS, pela Previdência Social e por alterações legais que só podem ser feitas em Brasília. Mas a mobilização precisa começar nos municípios, onde essas histórias acontecem e onde essas mães vivem o drama de um luto que não é apenas emocional, é também material.
Quero dizer a cada mãe que já enfrentou essa perda ou teme esse futuro que vocês não estão sozinhas. O Brasil precisa reconhecer o valor, a entrega e a humanidade de cada uma de vocês. Precisamos transformar essa dor em política pública concreta que ofereça proteção, oportunidade e recomeço.

* Vera Armando – jornalista e vereadora de Porto Alegre
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.