Domingo, 27 de setembro de 2026
Por Renato Zimmermann | 27 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A semana foi intensa. Daquelas em que a agenda parece pequena demais para caber tudo o que acontece. Participei da Semana Caldeira, em Porto Alegre, e saí de lá com a sensação de que, mais do que assistir a palestras, vivi uma experiência sobre o futuro — e, principalmente, sobre as pessoas que estão tentando construí-lo.
Para quem ainda não conhece, o Instituto Caldeira é um hub de inovação criado para conectar pessoas, empresas, startups, universidades, investidores e poder público. Nasceu em um antigo complexo industrial de Porto Alegre e hoje reúne mais de 500 organizações em sua comunidade. A proposta é simples na formulação, mas enorme nas consequências: criar conexões capazes de acelerar a inovação e fortalecer o ecossistema da nova economia.
A Semana Caldeira é a grande celebração anual dessa comunidade. Em sua quinta edição, foram mais de 300 atividades, mais de 200 palestrantes anunciados, dez palcos e mais de 100 horas de conteúdo. A lista atual chegou a 438 speakers confirmados, vindos de diferentes áreas do conhecimento, dos negócios, da tecnologia, da cultura e também da sustentabilidade.
Mas os números, por maiores que sejam, não explicam o que acontece naquele espaço.
Desde que conheci o Caldeira, entendi que existe ali algo diferente: a intenção de formar uma comunidade. As pessoas não ficam escondidas atrás das paredes dos seus escritórios. Elas circulam. Conversam. Perguntam. Apresentam-se e são apresentadas. Encontram alguém que não conheciam e descobrem uma ideia que talvez não encontrassem em nenhum relatório. É uma espécie de inteligência coletiva que nasce do encontro.
Entre tantos momentos, chamou minha atenção a presença de Uri Levine, cofundador do Waze, aplicativo de mobilidade e navegação que foi adquirido pelo Google em 2013. Ele esteve no Caldeira compartilhando sua experiência de empreendedor e também autografando seu livro Apaixone-se pelo problema, não pela solução. É simbólico: uma tecnologia que nasceu de um problema cotidiano — o trânsito — transformou a maneira como milhões de pessoas se deslocam.
Aproveitei também a atmosfera mais acolhedora da semana para conhecer melhor a Brivia, empresa de tecnologia e criatividade. Em conversa com Márcio Coelho, CEO do grupo, pude compreender melhor uma empresa que trabalha na intersecção entre tecnologia, dados, criatividade e experiência do usuário. A Brivia chama essa combinação de Creative Smartech: soluções digitais, inteligência de dados, software, aplicações, integração de sistemas e transformação digital colocadas a serviço dos negócios.
Mas o momento que mais me tocou aconteceu no ESG Day, no encerramento da Semana.
Assisti à palestra de Felipe Villela, diretor para a América Latina do The Earthshot Prize. Criado pelo então Príncipe William em 2020, o Earthshot nasceu com uma ambição extraordinária: encontrar, reconhecer e ajudar a escalar soluções capazes de reparar o planeta até 2030. São cinco grandes desafios — proteger e restaurar a natureza, limpar o ar, recuperar os oceanos, construir um mundo sem desperdício e enfrentar a crise climática.
Há algo poderoso nessa estratégia. O futuro Rei William utiliza a visibilidade da monarquia, a força da comunicação global e o poder de mobilização de personalidades internacionais para colocar soluções ambientais diante de milhões de pessoas. É sustentabilidade também como cultura, inspiração e comunicação. Um verdadeiro grande palco mundial — quase um “Oscar da sustentabilidade” — capaz de fazer com que pessoas que normalmente não prestariam atenção a esses temas parem, olhem e se envolvam.
Felipe Villela, porto-alegrense que hoje representa o Earthshot na América Latina, dividiu o palco com a jornalista Fernanda Zaffari, fundadora da fzUKConnect. E, em determinado momento, surgiu uma lembrança que parecia pertencer a outro tempo.
Estamos celebrando, em 2026, o centenário de José Lutzenberger.
Lara Lutzenberger estava na plateia. A lembrança provocou um momento especial. Ela agradeceu e falou sobre como a voz de seu pai continua ecoando. E lembrou que o Rei Charles III conheceu pessoalmente Lutzenberger e suas ideias por uma sociedade mais consciente.
Essa lembrança me tocou de maneira particular. Como voluntário da Fundação Gaia, participo justamente do esforço para manter vivo esse legado. Há décadas, Lutzenberger já falava de uma mudança profunda na relação entre humanidade e natureza. E, nos anos 1990, esteve com o então Príncipe Charles em um encontro a bordo do Royal Yacht Britannia, na Amazônia — uma história que já contei em outro artigo.
Naquele instante, passado e futuro pareceram se encontrar dentro do mesmo espaço.
Talvez essa tenha sido a verdadeira experiência da Semana Caldeira: perceber que inovação não é apenas tecnologia. É gente encontrando gente. É conhecimento circulando. É uma comunidade aprendendo a imaginar o que ainda não existe.
E talvez o futuro comece exatamente assim: quando diferentes gerações, diferentes ideias e diferentes histórias se encontram — e percebem que estão, cada uma à sua maneira, falando da mesma coisa: de como construir uma civilização mais consciente.
Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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