Terça-feira, 08 de setembro de 2026
Por Renato Zimmermann | 8 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Garopaba celebrou o 7 de Setembro deste ano de uma maneira especial. Em meio ao tradicional desfile cívico, a cidade escolheu a Educação Ambiental como tema pedagógico oficial de 2026 e prestou uma homenagem aos 100 anos de nascimento de José Lutzenberger, um dos maiores nomes do ambientalismo brasileiro.
Não foi apenas uma homenagem. Foi uma demonstração de civismo.
Escrevi recentemente nesta coluna sobre o significado do 7 de Setembro e sobre a importância da civilidade em tempos de tanta polarização. Defendi que uma nação se constrói quando conseguimos reconhecer aquilo que temos em comum, mesmo quando pensamos de maneira diferente. O que aconteceu em Garopaba é um bom exemplo disso: uma comunidade que utiliza uma data nacional para reafirmar valores que dizem respeito a todos nós.
Lutzenberger completaria 100 anos em 2026. Em Garopaba, ele é carinhosamente chamado de Professor Lutzenberger. Não se trata aqui de uma referência à profissão, mas àquilo que ele fez durante toda a sua vida: ensinou. Ensinou a olhar a natureza de outra maneira, a compreender que o homem não está separado dela e que desenvolvimento não pode significar destruição.
O desfile deste ano também marcou os 25 anos do Programa de Sensibilização e Educação Ambiental Professor José Lutzenberger, a conhecida Mostra Lutz, que desde 2001 mobiliza escolas e estudantes de Garopaba e região. O programa alcançou o status de política pública municipal e já envolveu dezenas de milhares de estudantes em atividades que relacionam ecologia, cidadania, história e identidade local.
E foi bonito ver essa história sendo contada pelas próprias crianças, pelos jovens e também por grupos da comunidade. O grupo de idosos Abraço Fraterno, por exemplo, mostrou que o legado de uma vida dedicada à natureza não pertence a uma geração específica.
A presença de Lara Lutzenberger, filha de Lutz e presidente da Fundação Gaia, deu ainda mais significado à homenagem. Lara representa a continuidade de um legado que não ficou preso aos livros ou à memória de seu pai, mas que continua produzindo iniciativas concretas.
Garopaba talvez seja um dos lugares onde esse legado possa ser observado com maior clareza.
A poucos quilômetros do centro da cidade está a Praia do Ouvidor, onde há décadas uma história de preservação vem sendo construída. O Gaia Village, projeto concebido a partir das primeiras formulações de Lutzenberger em 1997, está inserido junto à Praia do Ouvidor, à Praia da Barra e à Lagoa de Garopaba. A família Werlang iniciou ainda nos anos 1960 ações de proteção ambiental, incluindo trabalhos de estabilização das dunas e recuperação da vegetação.
É difícil olhar para aquela paisagem e não perceber que preservar não significa impedir que as pessoas desfrutem da natureza. Significa justamente criar condições para que possam desfrutá-la hoje e, principalmente, para que outras gerações também possam fazê-lo amanhã.
Esse talvez seja um dos maiores ensinamentos de Lutzenberger.
Ele compreendeu muito antes de grande parte da sociedade os riscos do consumismo desenfreado, da degradação ambiental e de um modelo de desenvolvimento que trata os recursos naturais como infinitos. Falou sobre mudanças climáticas, agricultura, solos, biodiversidade e práticas sustentáveis quando esses temas ainda estavam longe de ocupar o espaço que ocupam atualmente.
Hoje, quando discutimos aquecimento global, eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e pressão sobre o patrimônio natural, muitas das ideias que Lutzenberger defendia deixaram de parecer utopia. Tornaram-se necessidade.
E existe uma consequência importante quando uma comunidade passa a compreender isso: cidadãos mais conscientes aumentam as chances de construir políticas públicas melhores.
São eles que pressionam por regras, regulamentos e decisões que protejam aquilo que pertence a todos. A preservação ambiental não pode depender apenas da boa vontade de indivíduos ou organizações. Ela precisa também estar incorporada às políticas públicas.
Por isso, o desfile de Garopaba foi muito mais do que uma celebração de 7 de Setembro. Foi uma demonstração de pertencimento, memória e responsabilidade.
Quando uma cidade coloca suas crianças na rua para homenagear alguém que dedicou a vida a ensinar que somos parte da natureza, está ensinando novamente.
E talvez essa seja a melhor homenagem que José Lutzenberger poderia receber no ano de seu centenário.
Não apenas lembrar o Professor Lutz, mas continuar aprendendo com ele.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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