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Copa do Mundo 2026 Quando uma Copa começa, é difícil escapar da sintonia mental da torcida, diz neurocientista

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O contágio comportamental e a sensação de pertencimento a um grupo (no caso, a um país) realmente ampliam o entusiasmo da torcida. (Foto: Reprodução)

A Copa do Mundo pode estar empolgando menos gente que de costume neste ano, mas a ciência mostra que, quando a bola rola, o contágio comportamental e a sensação de pertencimento a um grupo (no caso, a um país) realmente ampliam o entusiasmo da torcida.

Essa é a opinião de Tiago Bortolini, neurocientista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), que há mais de dez anos se dedica a entender o cérebro de uma criatura peculiar: o torcedor. “A gente tem facilidade gigantesca de se identificar com qualquer grupo, mesmo que o critério de separação não faça sentido para você”, diz o pesquisador, apoiado pela iniciativa IDOR Ciência Pioneira.

Ciente de que as emoções do futebol são capazes de despertar o melhor e o pior de cada pessoa, Bortolini (gremista por tradição familiar) já mapeou a mente de torcedores de clubes usando técnicas que vão da ressonância magnética à psicologia experimental. Suas pesquisas ajudam tanto a entender melhor a violência nos estádios quanto o lado positivo da paixão dos torcedores.

Em entrevista ao jornal O Globo, ele compartilha suas reflexões sobre a torcida pela seleção, e o quanto ela é um fenômeno diferente da torcida por clubes.

– É comum a percepção de que as emoções do futebol despertam o melhor e o pior de cada pessoa. Seu trabalho como cientista é desvendar por que isso acontece? “O trabalhos com a torcida que a gente fez mostram o poder que o futebol tem de acentuar a característica humana de colaborar com pessoas de um grupo parecido com o seu, com pessoas do mesmo grupo. Isso serve para futebol, para nacionalidade, para raça, qualquer grupo. O lado bom é que a gente tende a colaborar. O lado ruim é que as pessoas às vezes tendem a rejeitar ou tratar mal quem é de um grupo de fora. Nos nossos estudos com ressonância magnética, a gente não chega a verificar isso diretamente no cérebro. O que nós vimos é que, quando a pessoa colabora, esse comportamento recruta áreas cerebrais semelhantes às da ‘filiação interpessoal’. São as mesmas áreas que se ativam quando a gente pensa na nossa mãe, no nosso pai, nos nossos filhos, nas relações interpessoais que são a base da sociabilidade humana. O que a gente mostra é o que nós chamamos de ‘apego estendido’: a capacidade dos humanos de se apegar a outras pessoas, mas também a outras coisas, inclusive coisas abstratas.”

– O efeito que vocês veem se aplica a quem torce só pela televisão e é espectador eventual que não vai a estádio? “Nos nossos estudos a gente considera o quanto a pessoa se declara torcedor só da boca para fora e o quanto ela realmente investe nessa identidade. Nós tentamos separar com alguns critérios os fanáticos dos não fanáticos perguntando quanto a pessoa com que frequência ela vai ao estádio, quantas vezes ela fica vendo jogo em casa etc. Os torcedores fanáticos investem o tempo deles no time e nos nossos estudos os efeitos que a gente verifica sempre são mais fortes nas pessoas que realmente vão ao estádio. A experiência do estádio e o fanatismo são coisas que se alimentam uma a outra. O cara vai ao estádio, onde a identificação dele com o time cresce, e o fato de ele se sentir mais identificado, em contrapartida, faz ele ir para o estádio cada vez mais vezes.”

– O que é o conceito de ‘fusão de identidade’ que vocês estudam nas torcidas? Ele ajuda a explicar a questão da violência no esporte? “A fusão de identidade se refere a quanto o indivíduo considera que a identidade do grupo e identidade dele são a mesma coisa. Nós usamos um questionário para tentar medir isso. A fusão de identidade pode acontecer com a torcida de futebol e com qualquer grupo social, incluindo religiões e nacionalidades. Quando as identidades pessoal e social se ‘fundem’, a pessoa age como ela e o grupo dela fossem uma coisa só, e a identificação passa a ser um caso extremo. A gente vê isso no caso de alguns integrantes de torcida organizada. Nós temos dois estudos sobre isso. Em um deles explorou exploramos o conceito de fusão de identidade em três grupos sociais diferentes: torcedores, nacionalistas e religiosos. Em todos esses grupos, o que a gente viu é que as pessoas num grau maior de fusão de identidade tendem a responder a ameaças de forma mais agressiva. Quando você ameaça o grupo dela, por ela estar ‘fusionada’, ela vê aquilo como uma ameaça a si mesma, e isso pode gerar uma resposta de violência. Nos nossos estudos a gente não tinha, obviamente, a violência *per se* sendo perpetrada. Nós usávamos questionários para medir indiretamente o quanto cada pessoa estaria disposta a prejudicar um outro grupo de alguma forma. E nós vimos que nas torcidas organizadas existe mais fusão de identidade, e os torcedores têm mais tendência a responder com a violência quando se sentem ameaçados.”

– Você concorda com a teoria de que os esportes de competição são uma maneira de canalizar a agressividade primitiva dos humanos para uma atividade não destrutiva? Isso é uma hipótese séria? “Eu não sei. Existe essa teoria na psicologia evolucionista de que os esportes têm a ver com aquela figura do ‘guerreiro’, que vem desde a origem da nossa espécie. O esporte seria uma maneira que a sociedade moderna encontrou para acomodar isso em algum lugar. Mas o que a gente vê é que, na verdade, os aspectos de violência no futebol são minoritários. Eles existem, claro, e no Brasil já se viu muitas mortes em conflito de torcida, mas se você for comparar com a grande massa de torcedores, essa violência é obviamente obra de uma minoria. Então, não sei se essa explicação se aplica. Hoje em dia, o futebol tem várias funções sociais. Talvez essa questão de canalizar a violência seja verdade para uma parcela de pessoas, mas não para a maior parte.”

– Seu grupo também já pesquisou o ambiente sensorial do estádio, com coisas como gritos de guerra, coros, bateria, ola… Isso tudo aumenta a sintonia cerebral do torcedor com o time? E a violência? “Foi nesse estudo que a gente constatou que a experiência de ir ao estádio é uma viagem de mão dupla. Você fomenta essa sensação de pertencimento e, ao mesmo tempo, a pessoa que já tem essa sensação de pertencimento passa a se identificar ainda mais. Isso aumenta com o estímulo de sincronia: o cântico da torcida ‘turbina’ esse comportamento contra um grupo externo, contra um rival. A gente mediu isso com uma tarefa econômica ali, não foi com uma situação real. Quando a pessoa tinha a possibilidade de tomar uma decisão contra ou a favor do torcedor de um time rival, aqueles que tinham escutado o cântico sincrônico e possuíam fusão de identidade tinham mais propensão a comportamentos hostis. A violência pode surgir numa situação de oposição, uma situação de percepção de ameaça como a que eu citei. Um exemplo típico é o que acontece com a atuação da polícia. O torcedor pode se sentir encurralado quando está sendo escoltado, vigiado. Basta ter um gatilho ali para o cara ver aquilo como uma ameaça contra o grupo dele, perceber aquilo como uma ameaça pessoal e acabar tendo uma resposta violenta. O estádio certamente tem esse poder, para o bem e para o mal. Ele pode gerar uma identificação muito forte, uma união, mas também pode estimular uma resposta violenta em pessoas que tenham alguns ingredientes psicológicos já de antemão.” As informações são do jornal O Globo.

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