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Colunistas Quanto do seu gosto é realmente seu?

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As redes sociais, e a internet no geral,  ampliaram nosso repertório de uma maneira extraordinária. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Nunca tivemos tanto acesso a referências quanto agora. Em poucos minutos, podemos entrar virtualmente em casas do outro lado do mundo, acompanhar desfiles em tempo real, conhecer novos restaurantes, descobrir marcas, observar comportamentos e reunir centenas de imagens daquilo que consideramos bonito, interessante ou desejável. As redes sociais, e a internet no geral,  ampliaram nosso repertório de uma maneira extraordinária, mas também produziram um fenômeno que merece atenção: quanto mais referências compartilhamos, mais parecidos começamos a ficar.

Não é difícil perceber isso quando observamos o que acontece ao nosso redor. As mesmas bolsas aparecem em diferentes cidades, os mesmos destinos se tornam objeto de desejo, os interiores começam a repetir materiais e composições semelhantes e até as fotografias seguem enquadramentos que reconhecemos imediatamente. Aos poucos, não apenas o que vestimos ou compramos passa a se parecer, mas também a maneira como nos apresentamos, nos comunicamos e construímos a imagem que queremos mostrar ao mundo.

Não vejo problema algum em buscar referências. Pelo contrário. Eu trabalho com moda, design de interiores e comunicação e sei o quanto um bom repertório é importante para qualquer processo criativo. Aliás, é fundamental. Tudo aquilo que vemos, estudamos, conhecemos e experimentamos amplia nossa percepção e inevitavelmente influencia nossas escolhas. A questão começa quando deixamos de utilizar a referência como ponto de partida e passamos a tratá-la como um modelo a ser reproduzido. Uma cópia mesmo.

Existe uma diferença importante entre reconhecer algo que nos inspira e simplesmente desejar aquilo exatamente como nos foi apresentado. Quando existe inspiração, a referência passa pelo nosso próprio filtro, encontra nossas experiências, preferências e valores e, a partir desse encontro, ganha uma nova interpretação. Quando esse processo não acontece, deixamos de construir uma escolha pessoal e passamos apenas a repetir uma escolha que já foi feita por alguém.

Eu costumo usar uma expressão em inglês quando percebo esse comportamento: wannabe. É aquela pessoa que não apenas se inspira em alguém, mas começa a reproduzir suas escolhas, sua estética, sua maneira de se comunicar e, em alguns casos, até seus trejeitos. Quanto mais alguém tenta se parecer com outra pessoa, mais evidente pode ficar justamente aquilo que lhe falta: uma identidade reconhecível como sua.

Mas o fenômeno atual é ainda mais interessante, porque já não se resume a uma pessoa copiando deliberadamente outra. As redes sociais criaram uma espécie de cultura coletiva de wannabes, na qual milhares de pessoas recebem diariamente as mesmas referências, os mesmos estímulos e os mesmos códigos de desejo. Depois de vermos determinada estética, produto ou comportamento repetidas vezes, aquilo começa a nos parecer familiar e, em algum momento, a repetição pode até ser confundida com gosto pessoal.

É justamente aí que essa discussão deixa de ser apenas estética. De tanto observarmos o que os outros escolheram, podemos começar a terceirizar o nosso próprio gosto sem perceber. Compramos porque vimos alguém usando, desejamos porque determinado objeto passou a representar sucesso, viajamos porque certos destinos parecem obrigatórios e decoramos nossas casas de acordo com imagens que se repetem diariamente diante dos nossos olhos. O risco é construir uma vida visualmente impecável e socialmente reconhecível, mas cada vez menos relacionada com aquilo de que realmente gostamos.

Identidade, para mim, não significa rejeitar influências ou buscar uma originalidade absoluta, até porque ninguém constrói repertório isoladamente. Somos resultado das pessoas que conhecemos, dos lugares por onde passamos, da cultura em que vivemos, dos livros que lemos, das referências que admiramos e das experiências que acumulamos. O que diferencia uma pessoa não é a ausência de influência, mas a capacidade de receber todas essas referências e ainda assim fazer escolhas que tenham relação com a própria história.

É por isso que duas pessoas podem frequentar os mesmos lugares, vestir as mesmas marcas, estudar os mesmos profissionais e ter acesso às mesmas referências sem necessariamente produzir os mesmos resultados. Quando existe identidade, existe interpretação. A autoria não está obrigatoriamente em criar algo que nunca tenha existido, mas em conseguir imprimir nas escolhas uma combinação particular de repertório, experiência, personalidade, valores e visão de mundo.

Também é por isso que algumas pessoas desenvolvem uma presença tão própria. Nem sempre são aquelas que estão usando o lançamento mais recente, frequentando o lugar mais comentado ou seguindo a tendência do momento. Muitas vezes, o que percebemos nelas é algo mais difícil de reproduzir: existe coerência entre aquilo que escolhem, aquilo que comunicam e aquilo que realmente são. 

Em um mundo que nos apresenta continuamente o que devemos vestir, comprar, conhecer, desejar e admirar, preservar a individualidade passou a exigir consciência. Não se trata de viver em oposição às tendências ou de rejeitar aquilo que se torna popular, mas de recuperar o hábito de questionar por que determinadas coisas nos atraem e quanto das nossas escolhas realmente passou pelo nosso próprio critério.

De vez em quando, vale interromper esse fluxo permanente de referências e fazer uma pergunta aparentemente simples: eu realmente gosto disso ou aprendi a gostar porque vi tantas vezes?

A resposta não diz respeito apenas ao nosso gosto. Ela revela o quanto ainda somos autores das escolhas que estamos fazendo e o quanto da nossa identidade continua sendo, de fato, nossa.

* Suellen Ribeiro, empresária, mentora e apresentadora do Jornal da Pampa, do grupo Rede Pampa de Comunicação. (Instagram: @suribeiroc)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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