Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 18 de novembro de 2017
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Da série “quem roubou meu queijo”, volto ao assunto do vilipêndio do consumidor de Pindorama. Queria saber quem foi o Einstein que inventou o SAC e o 0800 (que agora já é 0300, pago pela malta). Hoje o consumidor – que virou nitrato de pó-de-estrume – já nem é atendido por pessoas. Uma máquina faz o estelionato. Você liga e a máquina diz: já identifiquei o seu registro (e ouve-se, ao fundo, o teclado). “-Já estarei te transferindo…”. Sim, isso agora é dito não mais por uma mocinha do Tocantins (onde o custo do ISSQN é mais baixo) e, sim, por um computador. Sim, o PC gerundiou! E começa o inferno. Telefonia, TV a cabo, cartão de credito, seguros…
A contemporaneidade trouxe outra novidade: as empresas de cobrança que, já no primeiro dia de atraso, passam a atazanar a vida do vivente. Em 2015 passei por algo desse tipo, que redundou em representação que fiz ao Conselho de Ética da OAB-SP contra a empresa que me torrou a paciência. Tinha um financiamento com o banco Tudo-de-Brá-Prá-Você e com o qual você não gasta o seu 3G para fazer transferência. Uau, quanta vantagem para o cliente. Poupar o 3G (ups, o Banco acha que os que tem telefone com 4G não podem ter essa “vantagem”?). Bom, para aquele financiamento de carro, não escolhi o banco. Foi imposto pela concessionária. Sempre paguei em dia. A prestação de junho foi paga as 15h03min. Na mesma hora o Tudo de Brá recebeu, conforme prova que o Banrisul me fez. E durante uma semana a empresa paulista Reco Reco e Bolão Associados, contratada pelo Tudo de Brá, infernizou-me a vida. Pior: você não consegue falar com os donos. O atendimento é feito por funcionários que não estão autorizados a dar informações. Inferno. Surrealismo. Pós-modernidade.
Mas, por que isso é assim? Enquanto os eruditos juristas fazem teses bonitas (na maioria às custas da própria plebe rude!) sobre o direito do consumidor, tratando de trustes, dumpings, etc, a malta sofre nas mãos (e nas máquinas 0800) das empresas que prestam péssimos serviços e contra quem nada podemos fazer. Ligue para a Samsung para falar do aparelho de celular. Não tem telefone no site? Mas eles não fabricam…telefones? Quer resgatar milhas? Céus! Ligue agora.
Culpa de quem? Do governo, do parlamento e do judiciário. Do governo pela falta de vontade política; é leniente; fofo. Culpa também do parlamento que não elabora marcos regulatórios eficientes (sugiro acabar com o 0800; além de ter alguém para atender o usuário, ainda teríamos mais empregos). E culpa do judiciário que não exempla as empresas que lesam o consumidor. O judiciário inventou uma coisa bem fofinha: se você foi “aborrecido” por uma empresa, não ganha indenização; só ganha se foi dano moral… Mas o que é um ou outro? As empresas lesam deliberadamente; sabem que poucos patuleus entrarão em juízo; se muitos entrarem, o sistema colapsa. Logo, é vantagem enganar essa plebe ignara. Está com problema com a OI ou a VIVO ou a CLARO ou a TIM? Ligue para eles. Rá, rá. E rá. Ou vá até o shopping e pegue uma senha. Trouxa. Viva os 0800, que agora já são 4004 e quejandos (e esse você paga). Vamos reclamar para quem? Disque 1, se você é um imbecil; 2, idiota; 3, trouxa reincidente; 4, se você comprou um chip da OI e quer ouvir uma gargalhada do operador; disque 5 para “estarmos te encaminhando a um dos nossos colaboradores”. Bingo! Binguíssimo! Este é um país dominado por guildas. Guildas estamentais!
A tecnologia é boa. Mas também é usada de forma exagerada. E desemprega mais que emprega. Até as ouvidorias das empresas e dos órgãos públicos “mecanizaram”. Para você reclamar das máquinas você fala com uma máquina. Ela te pede o protocolo. De quê? Ela não diz. Porque você só pode falar com a ouvidoria se você já reclamou antes. E tem de ter o raio do número do protocolo. Em tudo que lugar é assim. Quer se enervar? Ligue, agora, para o seu cartão de crédito. Ou para a NET. Ligue. Ou para a Anatel. Ou para a Anac. Até loja de vinho já tem “disque 1 para….; 2 para…”. Uma oficina de conserto de tv tem “sistema” tipo disque 1, 2 ou 3. Você abre o google para ver um endereço e dezenas de sites invadirão a sua vida. E, escrevendo esta Coluna, no canto direito, embaixo, entram vários anúncios. Quem pediu? A mãe dos caras.
A tecnologia vai desempregar o próprio cara que a bolou. Como a guilhotina, que cortou a cabeça do inventor. Oh, raiva de 0800, 400, gerúndios, número de protocolos…
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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