Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 8 de julho de 2018
O brasileiro está insatisfeito com o sistema de saúde do País, seja público ou privado, e diante disso quer que a área seja a prioridade do governo federal, com o eventual vencedor das eleições presidenciais deste ano devendo se focar principalmente no combate à corrupção no setor. A constatação é de uma pesquisa encomendada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) ao Instituto Datafolha.
Das mais de 2 mil pessoas ouvidas, nove em cada dez (89%) classificaram a situação da saúde brasileira em todos os aspectos e em serviços públicos e privados como péssima, ruim ou regular. A proporção piora quando os entrevistados são divididos em associados ou não a um plano de saúde, atingindo 94% no primeiro caso e 87% no segundo.
Por trás desta discrepância pode estar o fato de que, quando consegue ser atendido no SUS (Sistema Único de Saúde), o brasileiro relata uma boa experiência em geral. Ainda segundo a pesquisa, nada menos que 97% dos ouvidos buscaram algum serviço do SUS nos últimos dois anos, com 39% deles apontando a qualidade do atendimento recebido como boa ou excelente, 38% regular e pouco mais que um em cinco como péssimo ou ruim.
Para Ligia Bahia, professora da Faculdade de Medicina da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e integrante da Comissão de Política, Planejamento e Gestão em Saúde da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), outra possível explicação para o fenômeno seria uma “questão de expectativas”.
Segundo ela, com o mau atendimento sendo presumido como “padrão” no sistema público, uma boa experiência nele acaba por deixar uma impressão final positiva, enquanto quem paga pelos planos de saúde espera uma assistência melhor do que a que acaba recebendo na rede privada.
“Que a situação da saúde é preocupante todos sabemos, mas o que essa pesquisa traz de novo é a constatação de que a insatisfação atinge tanto a saúde pública quanto a privada, quebrando a noção generalizada de que o problema é o SUS”, prossegue.
Razões diferentes
Ainda de acordo com Ligia, embora a insatisfação seja comum às duas redes, as razões são diferentes. No caso da saúde pública, pesam mais a demora no atendimento e a infraestrutura precária.
Conforme o levantamento, o principal problema dos brasileiros com o SUS é conseguir uma consulta com um médico especialista, apontada como difícil ou muito difícil por 74% dos entrevistados, seguido pela realização de cirurgias, difícil ou muito difícil para 68%, internações em leitos de UTI (64%) e acesso a exames de imagem (63%).
Já no sistema privado, considera Ligia, as principais fontes de insatisfação seriam obstáculos, burocracia e demora na autorização de procedimentos, bem como a má qualidade do atendimento em geral, apesar de relativamente mais rápido que no público. “Os planos de saúde estão longe de ser aquele reino encantado que é vendido na propaganda”, afirma.
“Nos planos mais caros, o atendimento tende a ser mais personalizado, mas a grande maioria dos clientes está em planos mais baratos, com atendimentos em urgências de hospitais muitas vezes por médicos recém-formados, com pouca experiência, o que faz com que a qualidade e segurança deste atendimento possa muitas vezes ser pior do que no serviço público”, complementa.
Assim, destaca Ligia, embora quem tenha plano de saúde também tenha mais chance de ser atendido, isso não quer dizer que encontrará uma assistência adequada: “O que importa é o diagnóstico correto e a condução segura do caso, o que muitas vezes não ocorre na rede privada, com o paciente sendo encaminhado de especialista em especialista sem que haja alguém que se responsabilize por ele, ou sendo mandado para casa sem diagnóstico e tratamentos corretos”.
Pesquisadora da Ensp (Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz), Margareth Portela concorda: “Falam muito mal do SUS, mas temos um sistema privado que, com algumas exceções, também tem muitos problemas de atendimento e qualidade. É uma fantasia achar que só por ter plano de saúde você vai ser bem atendido”.
Apesar de todos os problemas, o brasileiro ainda vê o SUS como o caminho a ser seguido na luta por uma saúde de qualidade. Na pesquisa do CFM, 88% dos entrevistados concordaram total ou parcialmente que o SUS deve ser mantido como modelo de acesso universal, integral e gratuito de saúde para todos, mesmo que 73% deles também não achem que o sistema público consegue atender a todos em igualdade de condições, pois só 45% consideram que ele recebe recursos suficientes para tanto.
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