Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 28 de agosto de 2015
O chefe obsessivo, a namorada sempre desconfiada, o amigo que só consegue falar de si mesmo. Lembrou de alguém? Basta olhar ao redor para reconhecer diversas pessoas de difícil convívio. Todos nós temos manias, uma lista de coisas que incomodam e dificuldades de adaptação. O problema é quando isso se torna algo frequente, fazendo com que as pessoas mais próximas se sintam abusadas, invadidas e insuficientes.
“Em uma linguagem mais popular, parece que nossa energia está sendo sugada. O indivíduo ‘morde e assopra’ e deixa os outros ‘pisando em ovos’, com uma incômoda impressão de impotência. Suas relações são marcadas pela existência de um padrão que dificulta a ação de quem está ao redor. A vida gira em torno desse sequestrador de emoções alheias”, resume a psiquiatra Katia Mecler em seu livro “Psicopatas do Cotidiano”.
Pessoas que exibem de forma duradoura, desde a adolescência ou início da vida adulta, um ou mais traços de personalidade patológicos podem ser consideradas psicopatas do cotidiano.
“Não se trata de uma doença mental. Os psicopatas do cotidiano não perdem o juízo da realidade. Tampouco seus sintomas aparecem na forma de surtos, com delírios e alucinações, como em casos de esquizofrenia, transtorno bipolar, e outras psicoses”, explica a autora.
Em menor ou maior grau, todos podemos apresentar traços de personalidade disfuncionais. Porém, o que caracteriza um traço patológico de personalidade são danos e prejuízos em relacionamentos íntimos, familiares, sociais e profissionais. E as redes sociais podem ter um grande papel nisso.
Em uma época em que a aparência muitas vezes vale mais do que o conteúdo, o Facebook, por exemplo, facilmente pode se transformar em uma plataforma que favorece psicopatas do cotidiano, sendo um lugar para exacerbar sentimentos diversos.
“É um meio facilitador para as pessoas com esses traços. O problema é o mau uso que muitos indivíduos fazem das redes. Vivemos em um tempo em que se dá mais importância ao que temos ou ao que aparentamos do que ao que somos ou construímos.”
Katia explica que a Associação Americana de Psiquiatria classifica dez transtornos específicos de personalidade, divididos em três grupos. No Grupo A, estão esquizoides, esquizotípicos e paranoides. No B, antissociais, borderlines, histriônicos e narcisistas. No C, dependentes, evitativos e obsessivo-compulsivos.
Psicopatas, por exemplo, são associados aos transtornos de personalidade do Grupo B, especialmente o tipo antissocial. O transtorno que caracteriza um assassino está relacionado com traços patológicos de personalidade como manipulação, ausência de remorso, frieza, mentira, transgressão e sedução. “Mas de forma alguma podemos dizer que todo assassino tem transtorno de personalidade antissocial ou que o indivíduo com esses traços cometerá crimes”, frisa Katia.
Ela ainda explica que a prevalência dos transtornos de personalidade na população em geral vem sendo estimada em torno de 10%. Entretanto, o contexto sociocultural pode favorecer a exposição maior de um determinado traço patológico de personalidade.
Transtornos de personalidade podem ser identificados a partir de um comportamento excessivo. Ou seja, pessoas perfeccionistas demais, tímidas demais, muito teatrais ou instáveis em demasia, que causam estranheza pelo excesso. É importante ressaltar que a pessoa se comporta do mesmo jeito com todos, sempre age da mesma maneira em determinadas situações e, em geral, não reconhece que tem um problema.
É comum se questionar sobre uma cura, mas a psiquiatra afirma que não existe uma. “O melhor caminho é buscar ajuda especializada para aprender a lidar e a se proteger emocionalmente, sem ter sua autoestima e integridade psicológica reduzidas a pó. Entender o problema e evitar confrontos desnecessários é um bom caminho”, aponta Katia. (Folhapress)
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