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Economia Saiba como foram os últimos dias de vida do Banco Master

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A liquidação do Master foi decretada pelo Banco Central (BC) em 18 de novembro. (Foto: Reprodução)

“Estamos morrendo aqui (…) Morrer de morrer mesmo, game over”. A frase foi dita por Daniel Vorcaro, do Banco Master, em 29 de outubro de 2025, pouco mais de duas semanas antes da liquidação extrajudicial da instituição financeira e da prisão do então banqueiro ao tentar sair do Brasil. Naquela manhã, Vorcaro trocava mensagens com o sócio Maurício Quadrado sobre a alarmante situação de liquidez do banco.

Conversas extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Vorcaro deixam escancarada a tensão entre eles e mostram o malabarismo para conseguir fechar o caixa, o calote em alguns clientes e o desespero que tomou conta do banqueiro enquanto o Master caminhava para uma inevitável insolvência. A liquidação foi decretada pelo Banco Central (BC) em 18 de novembro.

Os diálogos obtidos pelo jornal Valor Econômico cobrem quase dois anos de conversas com Quadrado, seu principal sócio, responsável por estruturar diversas operações de grande porte. Em 3 de novembro, duas semanas antes da intervenção, Vorcaro parece não ver mais solução. “Vamos quebrar por conta de 10 mm. Chegamos final da linha”, diz a Quadrado. Dois dias depois, questiona o sócio sobre a liquidação de uma operação. “Se falhar (sic) os 32 amanhã dele, game over. Meu pgto de FGC (Fundo Garantidor de Créditos)”.

Quadrado alerta que, se o Master não pagasse determinada transação, ficaria em default. “Mas default de cliente eu to cheio. Com uns 6 já”, diz Vorcaro, que, três dias depois, joga a toalha. “Hoje infelizmente vamos pro default. Não dar as ações pro BRB vai eclodir default de B3 e Bacen entrar. Eu lutei até o limite.”

“Daniel, eu estou ajudando desde o início. Eu não tenho todas as informações de como está (sic) as conversas. Vc falou que estava resolvendo, pelo jeito não está. Eu ficou (sic) também inseguro”, afirma Quadrado.

A última conversa registrada entre eles é em 13 de novembro, cinco dias antes de o Master quebrar. Quadrado pede ajuda sobre uma assembleia do fundo imobiliário Macam, solicitando uma procuração do Master. Não é possível entender exatamente, pelo diálogo, o que negociam. De qualquer forma, Vorcaro nega: “Procuração sem chance. Relação lá tá complicada”. Em 17 de novembro, véspera da liquidação, às 14h58, Quadrado procura novamente o sócio, mas fica sem resposta. Poucas horas depois, Vorcaro seria preso pela PF no Aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai, para supostamente fechar um negócio com investidores árabes que ajudaria a salvar o Master.

Quadrado tinha longa trajetória no mercado financeiro, ao contrário de Vorcaro. Fez carreira no Bradesco e ficou quase 15 anos na corretora Planner. Os dois sócios se juntaram em 2019, quando Vorcaro convenceu o BC de que podia comprar o Banco Máxima, que viria a ser o Master. No projeto, Quadrado estruturava operações de atacado, especialmente com empresas em dificuldades, muitas em parceria com Nelson Tanure.

As conversas começam em outubro de 2023. Em agosto de 2024, Vorcaro e Quadrado rediscutem a parceria e este decide deixar o Master. Porém, isso só acontece de direito, porque de fato o BC nunca aprovou sua saída.

Mesmo estando, na prática, fora do Master, Quadrado continuou fortemente ligado a Vorcaro, até porque não obteve autorização do regulador para sair do grupo com a licença bancária que queria (do Letsbank, subsidiária do Master). Assim, os dois seguiram se falando com frequência e fazendo negócios juntos. Em vários momentos, Vorcaro pediu que Quadrado transferisse recursos de empresas suas para o Master, de forma que o banco conseguisse fechar o caixa do dia quando já enfrentava graves problemas de liquidez. As conversas mostram uma intricada relação financeira entre eles.

Numa dessas ocasiões, em 21 de agosto de 2025, Vorcaro manda a Quadrado uma mensagem no WhastApp e na sequência os dois conversam em uma ligação, cujo teor não se conhece. Horas depois, o banqueiro questiona Quadrado: “Viu aí o que dá?”, ao que ele responde: “Correndo aqui para resolver”. Mais tarde, Quadrado diz que determinada operação deve ser liquidada no dia seguinte. “Entra 50, fica 25 e 25 mm (sic)”, escreve, se referindo aos valores que provavelmente entrariam no caixa do Master. “E hoje não consegue nada?”, insiste Vorcaro. “Estamos também com vencimento de CDB”, justifica Quadrado.

Duas semanas mais tarde, Vorcaro diz que está com dificuldades com a Visa, bandeira de cartões emitidos pelo Banco Master, e pede ajuda a Quadrado. “Estamos com pepino amanhã com a Visa, que temos que deixar recurso em garantia. Veja se consegue deixar 30k conosco cedo, seria muito importante pra eu conseguir segurar tudo sem dar um stress”, escreve. Cinco dias depois, ele diz que o BC e a Superintendência de Seguros Privados (Susep) haviam aprovado venda da seguradora Kovr, do grupo, mas que precisaria de mais tempo até os recursos entrarem no caixa. “Saíram as cartas do Bacen e Susep da seguradora, mas só preciso de dois dias até fechamento e entrada recursos. Aquelas captações não saem hoje? Precisava muito de um recurso pra virar.”

Quadrado responde encaminhando uma mensagem recebida de outro número: “Estamos aguardando. Mantém todos os sinais que está tudo certo. Apenas no rito operacional bancário. Previsão até final do dia”.

Em 3 de outubro, Vorcaro chama Quadrado novamente, e este pergunta se o sócio está em São Paulo. “Sim. Na guerra. Vou precisar sua ajuda hoje. Temos uma real possibilidade resolver”, diz o dono do Master. No dia 28 daquele mês, Vorcaro volta a pedir socorro. “Estou com chance boa de resolver tudo. Fechei grandes contratos que devem entrar a partir semana que vem. Estou com gargalo forte de hoje até segunda, precisava muito sua ajuda. Se eu virar até segunda, acho que resolvo de vez. Resolvi um dos ativos de 2 bi e entrada turma de fora mais 1 bi. E estou finalizando venda Will (Bank)”, afirma.

Naquele momento, Vocaro tentava vender o Will, banco controlado pelo Master, ao fundo Mubadala. O negócio não se concretizou e o Will foi liquidado em janeiro.

“O gargalo é muito alto rsrs”, responde o sócio de Vorcaro. “Não é não. Estou short (faltando) até segunda de 50mm. Se conseguir 25/30 me ajuda muito. Te vendo alguma coisa em garantia, casa angra sei lá”, negocia Vorcaro. “Deixa eu ver”, responde Quadrado.

No dia seguinte, a situação se complica mais. “Tenho 400mm confirmados segunda. 60 sexta. E estamos morrendo aqui por 20mm hoje e 20 amanhã. F*. Morrer de morrer mesmo, game over”. Em 30 de outubro, Vorcaro revela que o BC está preocupado com a situação do Master. “Bacen já se envolveu pq não quitei o Di do BRB. Estava com eles agora. Estão alucinados dizendo que já foi evento default (calote) mercado.”

Ele ainda diz a Quadrado que a Mastercard, bandeira dos cartões do Will, está cobrando a apresentação de garantias. “Precisamos sua ajuda vida ou morte. Contrato da Mastercard pra assinar, se não assinar agora, Will vai dar default hoje. Tá parado jurídico”, diz. Quadrado questiona se o jurídico da Trustee, uma das suas gestoras, está emperrando o negócio, o que é confirmado por Vorcaro. “Vamos liberar. E rezar rsrrsr”, diz a Vorcaro. O banqueiro responde que tem rezado muito. “É só o que faço.”

Procuradas, as defesas de Vorcaro e Quadrado não se manifestaram. A assessoria de Tanure diz em nota que ele não tem conhecimento das mensagens. “De todo modo, o empresário esclarece que sempre realizou investimentos em empresas com potencial de crescimento e geração de valor, muitas vezes por meio de assessoria de gestoras conhecidas no mercado. Nessa conjuntura, é natural que representantes dessas gestoras o procurassem para apresentar oportunidades de negócios e, ato contínuo, prestassem o serviço de assessoria que é oferecido a qualquer outro investidor do mercado de valores mobiliários.”Segundo Tanure, sua relação com o Master e com as “demais gestoras mencionadas nesse contexto sempre se deu na condição de cliente, nos mesmos moldes em que segue sendo atendido por outras gestoras e instituições financeiras do mercado”. O empresário diz repudiar “qualquer outra conotação inverossímil que se possa tentar extrair dessa realidade”. As informações são do jornal Valor Econômico.

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