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Mundo Saiba qual a relação entre a onda de incêndios florestais na Austrália e o aquecimento global

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Em 18 de dezembro, o país bateu seu recorde histórico de temperatura média, com 41,9°C. (Foto: Reprodução)

Para cientistas de diversas partes do planeta, a onda de incêndios na Austrália tem forte relação com as mudanças climáticas. Embora as florestas do país estejam naturalmente propensas à ocorrência natural do fogo e com a vegetação relativamente bem preparada para suportá-lo, a região tem sofrido com dois fenômenos típicos do aquecimento global: secas prolongadas e temperaturas cada vez maiores.

Dados do Escritório de Meteorologia do governo divulgados nesta semana indicam que 2019 foi o ano mais seco e o de temperaturas mais elevadas da história. Em 18 de dezembro, o país bateu seu recorde histórico de temperatura média, chegando a 41,9°C. No mesmo mês, todos os Estados australianos tiveram temperaturas superiores aos 40°C, incluindo a região da Tasmânia, ilha com clima mais ameno do que o restante do país.

A combinação de temperaturas cada vez mais escaldantes com as florestas progressivamente mais secas é literalmente explosiva. “As mudanças climáticas estão impressas em todas as partes deste verão ‘raivoso’ na Austrália”, avalia a climatologista Nerilie Abram e pesquisadora da Universidade Nacional Australiana.

A comunidade científica vem dando alertas sobre a vulnerabilidade da Austrália aos incêndios florestais há anos. Em 2007, um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) já falava no assunto. “É provável que um aumento no perigo de incêndio na Austrália esteja associado a um intervalo menor entre incêndios, maior intensidade do fogo, diminuição da extinção de incêndios e propagação mais rápida das chamas”, diz o texto.

Apesar disso, o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, do Partido Conservador, tem adotado uma estratégia de distanciamento das questões climáticas.

Próximo do setor de energias fósseis, o premiê mantém uma política de benefícios ao setor e, na última convenção do clima da ONU, realizada em dezembro em Madri, anunciou que pretende usar uma estratégia de contagem de carbono que reduziria ainda mais as modestas metas de redução de emissões de seu país. Em 2018, o país renunciou à legislação de redução de emissões de gases-estufa.

Na atual crise, a comunidade científica australiana vem usando as redes sociais para pedir ações rápidas para conter as chamas, como uma regulação mais forte sobre a realização de queimadas. Ambientalistas também criticam administrações anteriores, que mantiveram uma estrutura de emergência que não consegue responder à demanda de milhares de moradores e turistas desalojados.

Nos últimos anos, a existência de grandes fogos florestais tornou-se recorrente em vários pontos do mundo, embora a medida em que elas possam ser relacionadas às alterações globais varie bastante.

Cautela

Por conta das características multifatoriais dos incêndios, que envolvem variáveis como a velocidade do vento, o tipo de matéria orgânica e a quantidade de chuvas de uma determinada região, os especialistas costumam ser cautelosos ao apontar o dedo para uma razão específica.

No hemisfério Norte, de acordo com dados de pesquisadores da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana), há fortes evidências do papel do aquecimento global em diversos eventos, incluindo os grandes fogos nos Estados da Califórnia e do Alasca.

Além da combinação de eventos climáticos extremos, como seca prolongada e temperaturas mais altas, os cientistas identificaram ainda uma possível relação entre aquecimento global e aumento de relâmpagos, a principal causa natural de incêndios na natureza.

Um artigo publicado na revista “Nature”, que analisou o perfil dos fogos florestais do Alasca em 2015, descobriu que uma quantidade anormal alta de descargas elétricas foi gerada com as temperaturas maiores, ajudando a “alimentar” as chamas.

Na Europa, chama a atenção o caso de Portugal. Após uma temporada anormalmente quente e seca, em 2017 uma série de grandes incêndios deixou mais de 100 mortos. Pesquisadores da Universidade de Lisboa destacam que também houve um papel fundamental da substituição de vegetação nativa por outras mais inflamáveis (como eucaliptos) e questões humanas.

Cientistas rejeitam comparações entre os casos da Amazônia e os da Austrália. Segundo Erika Berenguer, pesquisadora da Universidade de Oxford (Reino Unido), grande parte da Austrália tem uma vegetação seca acostumada a regimes frequentes de fogo. Já na Amazônia o fogo não é uma presença natural.

“Assim como o fogo pode ocorrer de forma natural nas savanas africanas e no cerrado brasileiro, ele também pode ocorrer naturalmente na Austrália. O que está acontecendo na Austrália já estava em alguns modelos climáticos. No caso do Brasil, o fogo que vimos em 2019 foi decorrente da imensa alta do desmatamento”, diz Berenguer.

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