Quinta-feira, 01 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 1 de janeiro de 2026
Mesmo inelegível, preso e condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente Jair Bolsonaro ainda conserva um trunfo importante: um amplo capital político. Sem poder disputar o pleito, mas para manter seu nome na urna, ele indicou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu filho, como seu sucessor, mas o campo da direita segue longe de um consenso. Esse ambiente de incerteza leva a esquerda a se organizar sem a definição clara de quem será seu principal adversário nas eleições de 2026, traçando estratégias diversas.
A indefinição lembra o cenário de 2018, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo inelegível e na cadeia em processo da Lava-Jato, insistiu em sua candidatura até o limite, a menos de um mês do primeiro turno e atrapalhou a organização da esquerda – que, a partir de 11 de setembro daquele ano, definiu Fernando Haddad como candidato. Da mesma forma, a ausência de uma liderança única na direita abre espaço para disputas internas.
“No campo da direita, há uma multiplicidade de nomes”, disse o professor de Ciência Política da USP Glauco Peres da Silva. “Provavelmente, vários deles disputarão a eleição, o que, em si, não é um problema, já que Lula não deve vencer no primeiro turno”, acrescenta.
A cientista política Lara Mesquita também destaca que, em 2018, Fernando Haddad assumiu explicitamente o papel de herdeiro político da esquerda, usando sua imagem e o slogan “Haddad é Lula”. Para a pesquisadora, o cenário atual é distinto. “Parece pouco provável que a direita aceite se coordenar em torno de uma candidatura única vinculada à figura de Flávio Bolsonaro”, pontua. Segundo ela, essa fragmentação tende a gerar disputas internas, radicalização do discurso e afastamento de eleitores de centro e centro-direita.
Direita
No campo conservador, o PL afirma que recebeu com “responsabilidade e motivação” a indicação de Flávio Bolsonaro como pré-candidato. O deputado Luciano Zucco disse que, apesar de especulações sobre outros nomes, Flávio é o candidato do ex-presidente e conta com apoio interno.
Zucco ressaltou que o partido pretende ampliar alianças com siglas como Republicanos, Progressistas e União Brasil e destacou que a pluralidade de candidaturas no campo da direita não é necessariamente negativa. “Até mesmo ter várias candidaturas não é de todo ruim, até porque todas são de centro-direita e não concordam com o projeto da esquerda”, disse.
Centrão
Apesar do apoio do PL ao nome de Flávio Bolsonaro, as reações de lideranças da direita e do centrão à possível candidatura do senador à Presidência surgiram de forma cautelosa e gradual. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que a pré-candidatura pode contar com seu apoio, mas ponderou que apenas o tempo dirá se essa é a escolha mais adequada.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) destacou publicamente a jornalistas que decisões eleitorais não podem se basear apenas em vínculos pessoais. “Se eu tivesse que escolher pessoalmente um candidato para suceder Bolsonaro, não tenho a menor dúvida de que seria Flávio, pela minha relação com ele. Só que política não se faz só com amizades, se faz com pesquisas, com viabilidade, ouvindo os partidos aliados. Isso não pode ser só uma decisão do PL, precisa ser uma decisão construída”, afirmou.
Outra liderança do centrão, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, disse que o partido manterá sua própria estratégia para 2026. Segundo ele, a legenda apoiaria Tarcísio caso o governador decida disputar o Planalto. Se isso não ocorrer, o PSD deve lançar candidatura própria, com nomes como Ratinho Júnior (PR) e Eduardo Leite (RS).
O MDB, por sua vez, só decidirá em março de 2026 se lançará candidatura própria ou apoiará outro nome. Caso opte por uma aliança, o partido exigirá compromisso com seu programa “Caminhos para o Brasil”, lançado em 2025. A prioridade da sigla é fortalecer suas bancadas no Congresso e eleger governadores, com ao menos 11 pré-candidatos aos Executivos estaduais.
Esquerda
Do lado do PT, a indefinição está na chapa presidencial. O coordenador inter-religioso do PT, Gutierres Barbosa, disse que ainda não há discussões formais sobre o nome do vice em 2026 e que esse debate ocorrerá no momento adequado, dentro do congresso partidário. Atualmente, o posto é ocupado por Geraldo Alckmin, mas ele pode tentar o governo paulista caso a candidatura da direita para o Planalto seja do atual governador paulista.
Do lado do PSB, porém, a estratégia para as eleições de 2026 passa pela consolidação da unidade do campo progressista. A tendência é a manutenção de Alckmin como vice e reforçar alianças.
A avaliação é de que o cenário segue altamente polarizado e desafiador para a esquerda, o que torna indispensável a coordenação entre partidos como PT, PSB, PCdoB, PSOL e Rede. (Com informações do portal Terra)