Segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

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Saúde Sentir tédio não só é normal como pode fazer muito bem para as crianças

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Quando uma criança diz “estou entediada”, a resposta não precisa ser culpa ou frustração.

Foto: Freepik
Quando uma criança diz “estou entediada”, a resposta não precisa ser culpa ou frustração. (Foto: Freepik)

O tédio é uma experiência comum em diferentes fases da vida, culturas e épocas. Apesar de frequentemente encarado como algo negativo, ele cumpre uma função importante: estimular a busca por novos interesses, objetivos e desafios.

Na parentalidade contemporânea, porém, muitos pais tentam evitar que os filhos fiquem entediados. Para parte deles, o tédio é visto como uma emoção indesejável, que deve ser rapidamente eliminada com alguma atividade considerada produtiva ou, mais frequentemente, com o uso de telas.

Há diversas razões para esse comportamento. Muitos responsáveis enfrentam rotinas intensas de trabalho, pressão financeira e múltiplas tarefas domésticas. Manter a criança ocupada com jogos, vídeos ou atividades dirigidas pode facilitar o cumprimento dessas obrigações sem interrupções. Além disso, há uma pressão crescente para que os filhos tenham sucesso acadêmico, esportivo ou artístico desde cedo.

Outro fator é a mudança no modo como as crianças passam o tempo. Em comparação com décadas anteriores, elas brincam menos livremente ao ar livre e participam mais de atividades estruturadas. O fácil acesso a celulares, tablets e televisores tornou possível evitar o tédio quase o tempo todo. Durante a pandemia, por exemplo, muitos pais recorreram às telas para conseguir trabalhar em casa. Mais recentemente, alguns relatam pressão social para usá-las como forma de manter as crianças quietas em espaços públicos.

Antes de tentar eliminar o tédio, no entanto, especialistas alertam para a importância de compreender seus benefícios. Embora desconfortável, ele sinaliza a necessidade de mudança — seja de ambiente, atividade ou estímulo. Estudos em psicologia indicam que o tédio pode levar à descoberta de novos interesses e favorecer a criatividade.

O professor Arthur Brooks, da Harvard Kennedy School e da Harvard Business School, destaca que o tédio é essencial para a reflexão. O tempo livre cria espaço para questionamentos e para a busca de sentido. Em crianças, esse processo também estimula a curiosidade e o desenvolvimento cognitivo.

Além disso, aprender a lidar com o tédio é uma habilidade emocional importante. Crianças que gerenciam seu próprio tempo tendem a desenvolver melhor a função executiva, relacionada à definição de metas, planejamento e autocontrole. Do ponto de vista evolutivo, o tédio é tão universal que dificilmente teria se mantido se não trouxesse alguma vantagem adaptativa.

Pesquisas também indicam riscos no excesso de intervenção dos pais. Universitários com pais excessivamente envolvidos apresentam maiores índices de depressão. Outros estudos mostram que crianças pequenas frequentemente acalmadas com telas podem ter mais dificuldade para regular emoções no futuro.

Aprender a tolerar o tédio exige prática. Especialistas recomendam começar com pequenas doses de tempo livre e ampliá-las gradualmente. Brincadeiras ao ar livre, sugestões simples de atividades ou momentos de descanso ajudam a criar espaço para que “nada em particular” esteja acontecendo.

Crianças menores podem precisar de ideias iniciais, mas não de entretenimento constante. Já as mais velhas se beneficiam ao resolver o problema do tédio por conta própria, entendendo que ele é uma parte normal — ainda que desagradável — da vida.

Com o tempo, tanto crianças quanto adultos se adaptam. Pessoas que experimentam o tédio com mais regularidade tendem a percebê-lo com menos intensidade. Para os pais, abrir mão da obrigação de entreter o tempo todo também pode reduzir o estresse.

Dados de um relatório de 2024 do Departamento de Saúde Pública dos Estados Unidos mostram que 41% dos pais se sentem tão estressados que têm dificuldade para funcionar, e quase metade relata níveis de estresse considerados insuportáveis.

Por isso, quando uma criança diz “estou entediada”, a resposta não precisa ser culpa ou frustração.

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