Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 24 de abril de 2021
O fim da pandemia de coronavírus nem aparece ainda no horizonte, mas já está claro para muita gente que os impactos serão sentidos por muitos anos mesmo quando a circulação do vírus estiver controlada no mundo. Na área da saúde pública, esse cenário crítico deve durar pelo menos uma década, estima Suzana Lobo, diretora-presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), em entrevista à BBC News Brasil. O problema, segundo ela, se agrava ainda mais por causa das desigualdades de acesso a saúde no Brasil, tanto regionais quanto socioeconômicas.
“O serviço de urgência e emergência vai sofrer muita pressão tanto pelos problemas prévios dessa desigualdade de distribuição de leitos como o que a gente vê pela frente, que vai ter outras ondas, vai ter agravamento de comorbidades dos sobreviventes da covid, a desassistência provocada pela restrição de acesso a pacientes que não foram ao hospital porque tinham medo, doenças psicossomáticas, condições crônicas agudizadas… Os desafios do Brasil para a próxima década são enormes”, enumera Lobo.
Em sua avaliação, muitos países ricos também não estavam preparados para enfrentar a pandemia, mas “o que faz a diferença é depois você virar a chave e começar fazer as coisas certas”. No curto prazo, Lobo defende o controle do espalhamento da doença na população, com medidas como restrições à circulação de pessoas “na hora certa e no local certo, onde os leitos estão saturados” e uso obrigatório de máscara.
No médio e no longo prazo, as saídas passam por pontos como redução de desigualdades e a ampliação do número de profissionais capacitados para atender às novas demandas da pandemia, conforme diagnóstico apresentado por ela e outros colegas ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.
O principal obstáculo é obviamente financeiro. A falta de recursos para a saúde ante uma demanda crescente será potencializada pelo aumento do rombo nas contas públicas e pela emenda constitucional do teto de gastos, que limitou o aumento de despesas públicas até 2030.
Um ano antes da pandemia, um estudo publicado no periódico BMC Medicine já apontava que a restrição financeira em programas de atenção primária poderia levar a quase 30 mil mortes evitáveis no país.
Em um dado momento da pandemia, quando o número de mortes por covid no país já passava de 100 mil (hoje são 365 mil), o governo de Jair Bolsonaro decidiu a exaltar diariamente o número de “recuperados” da doença.
O objetivo da estratégia, considerada negacionista por especialistas, era fazer frente a uma “cobertura maciça de fatos negativos”, como chegou a dizer o ministro da Secretaria de Governo, o general da reserva Luiz Eduardo Ramos.
O conceito de recuperado inclui pessoas que foram diagnosticadas pela doença, mas não morreram. Só que muitas delas nem poderiam ser consideradas recuperadas, muito menos curadas, por causa da chamada covid longa.
Essa condição de saúde persistente tem atingido centenas de milhares de pessoas ao redor com mundo com sintomas que duram semanas ou meses, e alguns deles podem ser inclusive permanentes.
Ao longo de um ano de pandemia, cientistas e profissionais de saúde ao redor do mundo descobriram que a covid estava associada a mais de 50 manifestações de saúde relacionadas a diversas partes do corpo. Foram identificados danos neurológicos, psicológicos, pulmonares, imunológicos, renais, cardíacos, motores, entre muitos outros.
Há dezenas deles, como cansaço extremo, falta de ar, perda de olfato, dores nas articulações, problemas de memória, depressão, dores nas articulações e erupções na pele.
Segundo pesquisadores de universidades dos Estados Unidos, do México e da Suécia, que analisaram dezenas de estudos sobre o tema com 48 mil pacientes ao todo, os cinco sintomas mais comuns da covid prolongada são fadiga (58%), dor de cabeça (44%), dificuldade de atenção (27%), perda de cabelo (25%) e falta de ar (24%).
Não há dados disponíveis sobre o número de pessoas atingidas por essa condição no Brasil, mas é possível ter a dimensão a partir de outros países. No Reino Unido, por exemplo, país com um terço da população brasileira, estima-se que 300 mil pessoas enfrentem a chamada covid longa.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, 1 em cada 10 pessoas que contraíram o vírus continua doente três meses depois dos primeiros sintomas. As informações são da BBC News.
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