Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 3 de maio de 2016
Quanto mais exames o médico pede, mais você está protegendo sua saúde. Pode não ser bem assim. Algumas sociedades médicas brasileiras estão trazendo para o Brasil uma campanha internacional que tenta mostrar os riscos do que chamam de “epidemia de diagnósticos”. Ela seria causada por excesso de exames, que pode levar a uma “overdose” de tratamentos desnecessários e, em alguns casos, danosos.
Mas como saber se uma prescrição está correta? A ausência de uma resposta exata gera discussão entre médicos e dúvidas entre pacientes. “Com exames mais sofisticados, os diagnósticos e tratamentos aumentaram. Contudo, a mortalidade não caiu para nenhum tipo de câncer, nem para doenças cardiovasculares, segundo pesquisas. Certos procedimentos têm efeitos colaterais piores que algumas formas das doenças”, afirma o médico André Volschan.
Adepto da campanha “Choosing Wisely”, iniciada nos Estados Unidos em 2012, Volschan afirma que procedimentos só se justificam se puderem aumentar a expectativa ou a qualidade de vida do paciente.
“A cada mulher salva da morte por câncer de mama, muitas outras sofrem biópsias, que são procedimentos invasivos. O mesmo ocorre com a próstata. Intervenções devem ser bem avaliadas, pois levam a problemas permanentes, como impotência sexual.”
No entanto, há quem discorde das ideias da campanha. O presidente da Sociedade Brasileira de Patologia, Clóvis Klock, é taxativo sobre a importância de exames. “Temos que trabalhar com o máximo possível de prevenção, especialmente a do câncer. Falsos positivos são evitados com investigações posteriores mais complexas.”
Klock opina que o rastreamento das doenças, feito de acordo com faixas etárias e perfis adequados, só gera benefícios: “Através de técnicas mais precisas de diagnóstico e cirurgia, cura-se muito mais câncer que há 30 anos”.
Para evitar mal-entendidos entre os médicos, a campanha no Brasil, que ganhou o apoio da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), adotou a estratégia da americana, impulsionada pelo Conselho Americano de Medicina Interna. A ideia não é impor condutas aos doutores, mas estimular as sociedades médicas a criarem suas listas de procedimentos a serem evitados.
Em sua lista, a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que seja deixada de lado uma intervenção que movimenta um mercado de 10 bilhões de dólares por ano: a colocação de “stents” (pequenos tubos que abrem vasos entupidos por placas de gordura no coração) em pacientes assintomáticos . “O procedimento é invasivo, obriga a pessoa a ficar usando remédios e não previne infartos, mesmo em quem tem grande placa”, explica o cardiologista Luís Cláudio Correia.
“O excesso é uma forma que alguns profissionais têm de parecerem competentes. É também uma questão mercantilista. Vivemos de procedimentos realizados. Às vezes, a remuneração por exame é baixa, então muitos são pedidos, o que é uma distorção”, critica.
Pesquisador da Fiocruz, Josué Laguardia diz que está em desenvolvimento uma página do “Choosing Wisely Brasil”, em que haverá informações sobre o uso inadequado de procedimentos diagnósticos.
Consulta rápida.
Para Volschan, os motivos que levam o médico a pedir exames são as incertezas sobre o diagnóstico e o prognóstico. Além disso, ele cita as consultas rápidas, a exigência dos próprios pacientes, o medo de perder o “cliente” para um concorrente e de ser processado por não pedir os exames.
A campanha, diz Volschan, não pode ser entendida como uma recomendação de abandonar a medicina preventiva. “O que buscamos é o uso dos exames de forma racional. Medicina não é assinar pedidos de ressonância.”
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