Quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 22 de setembro de 2026
Seu filho tem mais de cinco anos e ainda faz xixi na cama durante a noite? Se sim, é importante estar atento, pois ele pode estar sofrendo de enurese noturna, um transtorno em que ocorre a perda involuntária de urina durante o sono uma ou mais vezes por semana. Esse problema afeta cerca de 10% das crianças entre 5 e 17 anos. Se não for tratado de forma adequada, pode impactar a autoestima da criança, causar problemas emocionais e gerar estresse familiar.
No entanto, é importante ressaltar que a enurese não é uma doença, mas sim uma condição clínica relacionada à hereditariedade e que tende a se resolver espontaneamente com o passar da idade. Essa condição, conhecida popularmente como “xixi na cama”, afeta aproximadamente 15% das crianças aos 5 anos, 10% aos 7 anos, 5% aos 10 anos e 1% a 2% aos 15 anos. É mais comum em meninos do que em meninas.
“A enurese é bastante comum antes dos cinco anos de idade e pode ser tratada a partir dos cinco anos, sendo recomendado o tratamento a partir dos sete anos. Se não for tratada, a criança pode enfrentar problemas emocionais e constrangimentos, como não poder dormir na casa de amigos, não participar de viagens escolares e ter dificuldades para se socializar adequadamente. Isso acaba afetando até mesmo seu desempenho escolar”.
Explica o urologista pediátrico Ubirajara Barroso Junior, professor na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Escola Baiana de Medicina, além de ser secretário-geral da International Children’s Continence Society (Sociedade Internacional de Incontinência Urinária, ICCS).
Apesar de ser um ato involuntário, o fato de uma criança fazer xixi na cama em uma idade mais avançada muitas vezes resulta em punições prejudiciais e ineficazes. Barroso ressalta que os pais devem ter em mente que a criança não faz xixi na cama por vontade própria, mas sim de forma involuntária.
Segundo ele, um estudo brasileiro mostrou que cerca de 40% das crianças que sofriam de enurese noturna eram punidas pelos pais, que acreditavam que o problema ocorria devido à preguiça ou má vontade da criança em acordar e urinar. Outros 60% relataram ter sido alvo de algum tipo de punição física ou emocional.
Diante das ocorrências frequentes, como os pais podem distinguir se os episódios de xixi na cama são causados pela enurese ou apenas preguiça ou dificuldade da criança em abandonar as fraldas, por exemplo?
O urologista Barroso explica que a regularidade dos eventos é um indicativo importante, juntamente com o histórico clínico da criança. “Se a criança já apresenta urgência para urinar durante o dia ou pequenos escapes, por exemplo, são sinais de que ela pode sofrer de enurese noturna”, afirmou.
Mas afinal, qual é a causa da enurese? A explicação está relacionada à fisiologia do nosso corpo. De acordo com Barroso, há uma comunicação entre a bexiga e o cérebro: quando a bexiga está cheia, ela envia um sinal ao cérebro, que pode tomar duas decisões. Uma delas é enviar um comando para que o corpo vá ao banheiro, relaxe o assoalho pélvico e urine.
A outra é enviar uma mensagem inibitória à bexiga para segurar a urina, permitindo que ela se encha um pouco mais antes de urinar mais tarde. Durante a noite, essa comunicação deveria funcionar da mesma maneira.
Isso ocorre devido à presença de uma região no cérebro chamada Locus coeruleus, conhecida como a área do despertar. Quando somos balançados na cama, por exemplo, essa informação é enviada ao Locus coeruleus, que envia outros sinais para acordar o cérebro e nos despertar.
No caso do funcionamento da bexiga, é semelhante: quando ela está cheia, envia uma mensagem ao Locus coeruleus, que informa ao cérebro que precisamos acordar para urinar. No entanto, em algumas crianças, esse sistema ainda é imaturo e o cérebro precisa receber múltiplos sinais para compreender que precisa acordar.
“Essas crianças têm dificuldade em despertar devido à imaturidade do Locus coeruleus. Como resultado, o cérebro não reconhece a bexiga cheia, e esta, por sua vez, se contrai automaticamente para esvaziar”, explica o urologista pediátrico.
E as questões não param por aí. Além disso, o Locus coeruleus também envia sinais ao cérebro para liberar o hormônio antidiurético vasopressina, o qual reduz a produção de urina enquanto estamos dormindo.
“Se o Locus coeruleus não é ativado nessas crianças devido à sua imaturidade, haverá uma menor circulação do hormônio antidiurético e, consequentemente, um aumento da produção de urina durante o sono. É o que eu chamo de equação do xixi na cama: um sono profundo mais aumento na produção de urina resulta em xixi na cama.”
O que fazer?
– Acolha sem dramatizar: a criança já se sente envergonhada. Ela não gosta de acordar na cama molhada. O primeiro passo é tirar o peso da culpa.
– Tente “sentir com” ela: coloque-se no lugar do seu filho. Observe o que está acontecendo ao redor — na escola, na rotina, na forma como vocês se relacionam.
– Respeite o tempo dela: o controle dos esfíncteres exige um amadurecimento que vai muito além do físico. Forçar antes da hora pode gerar traumas desnecessários.
– Dê nome aos sentimentos: brincadeiras, histórias e conversas ajudam a criança a organizar o que viveu. Quando ela consegue narrar o que sente, o medo diminui e o corpo para de “falar” por ela.
– Seja parceiro: o cuidado emocional é fundamental, e escutar a criança é o primeiro passo. Deixe claro que vocês estão do mesmo lado — a criança precisa sentir os pais com ela, não contra ela.
O que evitar?
– Nunca puna ou humilhe: a punição só aumenta a ansiedade e, consequentemente, a frequência do sintoma.
– Evite interpretar como “vingança”: raramente a criança molha a cama de propósito. Acreditar nisso é um erro que afasta pais e filhos.
– Fuja do “condicionamento”: forçar o controle antes de a criança estar pronta é uma violência que deixa marcas.
– Não transforme a noite em campo de batalha: brigar de madrugada ou comparar a criança com irmãos destrói a segurança que o quarto deveria oferecer.
– Olhe para dentro de casa: às vezes, a criança acaba absorvendo angústias que pertencem à dinâmica da casa. Vale a pena se perguntar: o que está acontecendo ao nosso redor?
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