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Colunistas Seu Quintino: cem anos de histórias e uma última risada

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Seu Quintino viveu um século inteiro vendo o mundo mudar

Foto: Divulgação
Seu Quintino viveu um século inteiro vendo o mundo mudar. (Foto: Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Há pessoas que vivem muitos anos. E há pessoas que, além de viverem muitos anos, conseguem deixar alguma coisa delas espalhada por onde passaram.

Seu Quintino Antônio da Silva fez as duas coisas. Foram cem anos e dois meses de vida. Um século inteiro vendo o mundo mudar, gerações nascerem, costumes desaparecerem e outros surgirem. Mas algumas coisas permaneceram nele até o fim: o amor pela família, o valor do trabalho, a amizade, uma boa conversa, o churrasco, a cerveja gelada e o bom humor.

Sua história vinha de uma família acostumada cedo ao trabalho. Sua mãe, viúva, conheceu ainda menina o peso da roça. Seu Quintino aprendeu com a vida antes que ela tivesse tempo de explicar muita coisa. Foi marido, pai, trabalhador e, acima de tudo, referência para os seus.

Depois da partida da esposa, que faleceu aos 76 anos, seguiu cercado pela família. Não tive o privilégio de conhecer todos os filhos, mas conheço João Paulo e Liane – e basta ouvi-los falar do pai para entender o tamanho da presença que ele deixou.

Os netos também carregam suas lembranças. Para um, a visita ao vovô quase sempre significava algumas moedinhas a mais no cofrinho; para outro, ficaram os doces, as brincadeiras, o carinho e aquelas histórias fantásticas que só um avô com um século de vida poderia contar. Pequenas coisas que, com o tempo, viram grandes heranças.

Parte dessa história também mora no Boteco Raiz, que chegou às mãos do filho João Paulo. O lugar já havia se tornado literatura na crônica “Boteco raiz, onde os homens se encontram”, publicada no jornal O Sul. Agora, de alguma maneira, Seu Quintino também se junta à história daquele boteco e às histórias que ele continua produzindo.

Eu o conheci na comemoração de seus cem anos, numa churrascada entre familiares e amigos justamente naquele boteco. Bastaram poucos minutos para perceber que ali não estava apenas um homem centenário, mas alguém atento, espirituoso e ainda muito disposto a rir das malícias da vida.

Em determinado momento, resolvi contar uma piada. Disse que, em suas visitas a asilos da região, Seu Quintino havia conhecido uma jovem viúva — “jovem”, naturalmente, pelos padrões de um homem de cem anos. Ela tinha sido miss, ainda conservava a beleza, um sorriso generoso e um jeito muito carinhoso.

Tão carinhoso que gostava de segurar o já aposentado soldadinho de Seu Quintino, que, vez ou outra, ainda tentava heroicamente entrar em posição de sentido.

Ele me olhou com aquele jeito discreto de quem havia entendido perfeitamente a malícia. Primeiro, veio o sorriso. Depois, a risada discreta. Continuei.

Certo dia, outra senhora do asilo começou a se aproximar demais de Quintino. A ex-miss, tomada pelo ciúme, resolveu tirar satisfação:

— Quintino, afinal, o que essa mulher tem que eu não tenho?

E ele, sem titubear:

— Mal de Parkinson.

Seu Quintino gargalhou.

E, ali, aconteceu algo que tornou aquela piada inesquecível para mim. Ele deixou de ser apenas o ouvinte e assumiu o protagonismo da história. Aquele Quintino inventado passou a existir no sorriso do homem sentado à minha frente, como se a aventura realmente tivesse sido sua.

Talvez, por isso, eu tenha guardado tanto aquela cena. Aos cem anos, depois de tudo o que a vida já havia lhe mostrado, ele ainda tinha espaço para uma boa piada.

E, talvez, exista aí uma pequena lição: envelhecer pode ser inevitável; perder a capacidade de rir, não. E Seu Quintino ainda conseguiu uma última façanha: passou dos cem.

Se existir alguma multa por ultrapassar essa marca, não tem problema. Essa ele acerta no Paraíso.

E, depois de um século de trabalho, família, churrasco, cerveja gelada, histórias e boas risadas, acho difícil alguém lá em cima ter coragem de cobrar juros. Por isso, quando alguma dessas histórias provocar uma risada no meio das lágrimas, não se sintam culpados.

Tenho a impressão de que ele entenderia a piada, daria aquele sorriso de canto e acabaria rindo junto. Descanse em paz, Seu Quintino!

O senhor viveu um século. Agora, começa a viver nas histórias de quem ficou.

Nota do autor: A versão original deste texto, um pouco mais longa, foi lida em seu velório, antes do sepultamento, e emocionou familiares e amigos. João Paulo, meu amigo, lamentou que eu não pudesse estar presente por um compromisso de trabalho. Mas, de alguma forma, eu estava. Não fisicamente — estava no afeto, nas palavras e naquela despedida que escrevi para Seu Quintino.

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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