Sábado, 26 de setembro de 2026
Por Tito Guarniere | 26 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Foi uma sessão do Supremo Tribunal Federal para esquecer. O que mais se leu e ouviu sobre a reunião: um show de horrores.
O STF já vinha mal na opinião pública, mas a sessão de 15/9 colocou uma pá de cal no que restava de prestígio da Corte. Só com um plano urdido com tempo e cuidado, com o objetivo declarado não de dar uma solução para crise ali instalada, mas de detonar o encontro, para alcançar resultado tão desastroso.
É difícil saber por onde começar. Talvez pela sessão em si, e a pauta. Estava mais do que evidente que havia um potencial incendiário – dali só poderiam sair faíscas de ódio e mal querer, troca de ofensas e desaforos, acusações recíprocas, vozes alteradas e argumentos pálidos.
Talvez pelo desempenho do presidente Edson Fachin. A encenação medonha poderia dar lugar a uma condução segura se ele tivesse firmeza, se conhecesse melhor o regimento, se ele se houvesse com a autoridade, que o cargo lhe confere.
A verdade é que Fachin sucumbiu diante dos ataques de lacração de Gilmar Mendes e Flávio Dino que, atuando em dupla, encurralaram e inibiram o presidente, que não teve estofo nem conhecimento técnico para silenciá-los, impedi-los de tomar conta do cenário.
Eu achava que Dino, Gilmar, Cristiano Zanin iriam trabalhar para autorizar o STF a investigar o colega Alexandre de Moraes. Era a finalidade maior da reunião. Um caminho simples, necessário para resgatar o pouco que resta de avaliação positiva da Corte. Um caminho simples para enquadrar Moraes – o contrato de R$ 130 milhões de Vorcaro com a esposa de Moraes, doutora Viviane, não tem como permanecer sem o devido escrutínio.
Mas não. Dino e Mendes, principalmente, estavam mais empenhados em trazer André Mendonça à lide e em alvejar Fachin. Dava a impressão que se travava ali uma batalha pela preservação da República, e que os impasses da nacionalidade se resolveriam vencendo o duelo. Jogaram ali todas as suas cartas. E no sentido desse objetivo medíocre – vencer o duelo na Corte Suprema – ignoraram todas as consequências, para o Tribunal, para o Brasil.
Trouxeram o debate para a campanha eleitoral em curso. Mas se foi para ajudar o seu suposto aliado, o presidente Lula, foi o clássico tiro no pé.
Tanto é assim que Lula se juntou às muitas vozes que classificaram a sessão “histórica” de show de horrores. Criticou o protagonismo de Flávio Dino. Percebeu que aquilo tudo se tornou um obstáculo para a pretensão de se reeleger.
Pode ser que Lula tenha adotado essa posição por cálculo político, como forma de se distanciar de Moraes, Mendes, Dino, desgastados junto ao distinto público, e identificados como aliados do presidente. Mas nada disso faz menos vexaminoso o show de horrores.
Pode o STF se recuperar de todos esses golpes, perpetrados pelos seus próprios componentes? Pode, mas vai demorar bastante. É preciso, para começo, acabar com a indicação de ministros pelo presidente – gera desvios, disfunções, anomalias. O melhor seria um colegiado eminentemente técnico, equidistante dos demais poderes e com mecanismos capazes de conter as vaidades, os protagonismos, as tentações de glória e poder.
* Tito Guarniere (Contato: titoguarniere@terra.com.br)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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