Domingo, 01 de fevereiro de 2026
Por Redação O Sul | 31 de janeiro de 2026
De acordo com o Banco Central, o primeiro dos riscos para a alta dos preços neste momento é “uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado”. É o que se lê no comunicado em que a autoridade monetária anunciou a manutenção de seus juros em 15% ao ano.
No mesmo documento, o BC indica que a taxa Selic deve ser reduzida na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março. Afirma-se que o compromisso de levar o IPCA de volta à meta de 3% em 12 meses “impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo” de queda.
Com base tanto nesse texto quanto em indicadores econômicos e projeções de mercado, compreende-se que o caminho para a redução de Selic está cercado de empecilhos e incertezas. Não está garantido, alerta o BC, que a taxa básica caia para os 12,25% anuais projetados pelo mercado para o final deste ano.
A mediana das expectativas de inflação continua “desancorada” —há mais de um trimestre, não dá sinais de que convergirá de modo rápido para a meta. Segundo as previsões compiladas pelo BC, o IPCA chegaria a 4% ao final deste 2026. No terceiro trimestre de 2027, chegaria a 3,74% —é neste momento em que, se estima, a política monetária de agora teria seu maior impacto.
Já segundo o cálculo do BC que adota as previsões do mercado para a Selic, a inflação estaria em 3,2% no terceiro trimestre do ano que vem. A discrepância entre as contas ainda é notável.
Os números dos analistas independentes estão influenciados pelo rombo orçamentário produzido pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —o risco de déficits contínuos ou maiores e, assim, de crescimento ainda mais acelerado da dívida pública.
Não se sabe se o presidente que tomará posse em 2027 adotará medidas críveis e relevantes para conter a deterioração fiscal. Nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula, houve déficits recorrentes, mesmo com crescimento do PIB e da arrecadação.
Outro risco mencionado pelo BC é o de persistência da inflação de serviços numa economia que se expande acima de seu potencial. De menos controverso a esse respeito, sabe-se que o mercado de trabalho continua forte.
A taxa de desemprego baixou à mínima de 5,1% no trimestre encerrado em dezembro, segundo o IBGE, com crescimento anual de 1,1% do total de pessoas empregadas. O salário médio aumentou 5% em termos reais e anuais, ao menos o dobro do ritmo do PIB. Salários em alta pressionam os preços dos serviços.
A valorização do real ante o dólar contribuiu para conter a inflação no ano passado, mas não é certo que a moeda americana continue em queda.
Tudo isso lança incertezas não só sobre o ritmo da redução dos juros, mas também sobre até onde ela poderá ir. As projeções mais consensuais são de dois dígitos até o final de 2027, o que ainda será uma taxa asfixiante. (Editorial publicado na Folha de S.Paulo)