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Colunistas Terceira República Islâmica

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

O sistema internacional, habituado a crises cíclicas no Oriente Médio, assiste agora a algo sem precedentes: um cessar-fogo de 14 dias entre Washington e Teerã, selado com precisão cirúrgica pelo Paquistão. O chamado Acordo de Islamabad não é apenas um hiato nos bombardeios, mas o reconhecimento formal de que a República Islâmica transmutou-se radicalmente. O Irã de hoje não é mais governado por clérigos em busca do martírio, mas por generais em busca de sobrevivência. Este desfecho é realpolitik em estado puro. Enquanto analistas românticos previam uma “Primavera Persa”, o cenário que se confirmou foi a conversão do regime em uma estrutura puramente pretoriana. O “Estado profundo” iraniano utilizou o caos das ruas para remover o clero ineficiente e consolidar o poder sob o cano das armas.

A morte de Ali Khamenei serviu como o catalisador final para esse processo, fazendo emergir das cinzas a consolidação definitiva do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como o verdadeiro senhor do Estado. Embora Mojtaba Khamenei ocupe o trono nominal, ele governa sob a tutela de figuras como Mohammad Baqir Qalibaf, Presidente do Parlamento do Irã. Entramos, assim, na era da “Terceira República Islâmica”, onde a ideologia se tornou um mero adereço para a manutenção de privilégios econômicos de generais-empresários que gerenciam um conglomerado militar-industrial massivo e extremamente pragmático. Esse pragmatismo permitiu o cessar-fogo quando a Guarda Revolucionária compreendeu que a ameaça de Trump de destruir a infraestrutura física do país atingiria sua própria base de riqueza e controle social.

O regime parece agora abraçar um modelo híbrido: por um lado, a face externa de uma “venezuelização”, com uma liderança que negocia o alívio de sanções para manter o fluxo financeiro da cúpula, por outro, o “modelo egípcio” de estabilidade autoritária, que troca o fervor revolucionário pela gestão previsível de ativos estratégicos, como o Estreito de Ormuz. Do outro lado da mesa, o cálculo de Donald Trump reflete uma mudança drástica, abandonando o papel de polícia global. Com a independência energética dos EUA, Ormuz deixou de ser uma prioridade direta de segurança nacional para Washington, tornando-se um problema dos aliados europeus e asiáticos. Ao exigir que o Irã reabra o estreito em troca da suspensão de sanções, Trump está, na prática, terceirizando a segurança marítima. É a diplomacia transacional levada ao limite, onde o isolacionismo estratégico encontra a extorsão diplomática.

A mediação do Paquistão, liderada por Shehbaz Sharif e o Marechal Asim Munir, foi o pilar de equilíbrio que evitou o abismo. Islamabad prefere um Irã sob a tutela de generais pragmáticos do que um Estado falido exportando instabilidade para as fronteiras do Baluchistão. Contudo, esse otimismo é frágil. A interconexão entre os teatros de guerra da Ucrânia e do Irã criou um monstro logístico difícil de desmantelar, onde os drones que atingem Kiev são os mesmos que garantem ao IRGC sua alavanca de dissuasão no Golfo. O que assistimos neste momento é o experimento de converter uma teocracia revolucionária em uma autocracia mercantilista. O futuro do Irã repousa na capacidade de generais cínicos e de um presidente americano transacional de encontrarem um preço comum para a estabilidade, enquanto a população iraniana aguarda para ver se a República das Fardas será mais duradoura — ou apenas mais violenta — que a República dos Turbantes.

* Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

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