Segunda-feira, 20 de abril de 2026
Por Redação O Sul | 20 de abril de 2026
Exame é simples e rápido, apenas apontado para a sola do pé dos bebezinhos.
Foto: FreepikUma cena comum em maternidades ou regiões isoladas do Brasil pode esconder um risco difícil de identificar. Um bebê nasce pequeno, com aparência saudável, e a equipe médica precisa decidir, nos primeiros minutos de vida, se ele necessita de cuidados intensivos. Em muitos casos, faltam informações precisas, especialmente quando a idade gestacional é incerta.
Uma tecnologia brasileira busca reduzir essa incerteza e, com isso, evitar complicações e até mortes. A incorporação do dispositivo ao Sistema Único de Saúde foi autorizada no início de março pelo Ministério da Saúde.
O equipamento funciona de forma simples: o profissional encosta o aparelho na sola do pé do recém-nascido, e um feixe de luz atravessa a pele. Em poucos segundos, o sensor capta informações que são analisadas por um algoritmo, capaz de estimar a idade gestacional.
A técnica se baseia em mudanças naturais da pele ao longo da gestação. Bebês prematuros apresentam pele mais fina e transparente, enquanto os nascidos a termo têm uma estrutura mais espessa e organizada. O dispositivo permite, assim, antecipar riscos ainda nas primeiras horas de vida.
“O PreemieTest resolve um problema crítico: identifica imaturidade orgânica antes da deterioração clínica, quando o recém-nascido ainda parece estável. Isso antecipa o risco e cria a oportunidade de mudar o desfecho. Mas informação, sem ação, não salva vidas”, afirma Rodney Guimarães, um dos criadores da tecnologia ao lado da médica Zilma Reis.
Com a identificação precoce, equipes de saúde podem iniciar rapidamente medidas como suporte respiratório, controle térmico e transferência para UTI neonatal, aumentando as chances de sobrevivência e reduzindo complicações.
No Brasil, cerca de metade dos recém-nascidos não tem idade gestacional precisa, em grande parte pela ausência de ultrassom no início da gestação, considerado o método mais confiável para esse cálculo. Sem esse dado, médicos trabalham com estimativas, o que pode levar a erros de avaliação.
“O desconhecimento da idade gestacional cria uma espécie de ‘cegueira clínica’. Sem essa informação, há risco de subestimar a imaturidade do bebê”, explica Daniele Soares Marangoni.
Em regiões remotas, como áreas indígenas e ribeirinhas, o impacto da tecnologia tende a ser ainda maior. Nesses locais, muitas vezes não há acesso a exames, histórico gestacional confiável ou especialistas.
A parteira Gessilene Buzaglo, que atua no interior do Amazonas, relata um caso em que o equipamento ajudou a identificar a prematuridade e viabilizar a transferência aérea do bebê para Manaus, onde havia estrutura adequada. “Fizemos o teste e o médico encaminhou para Manaus”, disse.
Para a neurocientista Silvana Alves Pereira, o exame funciona como indicador de maturidade biológica. “A luz que avalia a pele pode dar pistas sobre o risco de lesões pulmonares e neurológicas futuras”, afirma.
Estudos com mais de 5 mil recém-nascidos apontam melhora na tomada de decisão clínica, segundo Roberta Lins Gonçalves. “Observamos boa concordância com métodos tradicionais e impacto positivo nas decisões médicas”, disse.
A implementação no SUS deve ocorrer em até 180 dias após a portaria publicada em 11 de março. A previsão é que a tecnologia seja inicialmente distribuída em Distritos Sanitários Indígenas, com mais de mil aparelhos destinados à atenção básica.
Cada dispositivo custa cerca de R$ 11 mil e exige baixa manutenção. Para João Paulo Dutra, a incorporação representa um avanço. “É o reconhecimento do potencial de impacto da tecnologia, que precisa sair do campo acadêmico para gerar resultados concretos”, afirma.
O Ministério da Saúde destaca que a inovação pode ajudar a reduzir desigualdades no acesso ao cuidado neonatal, mas reforça que o pré-natal adequado continua sendo a principal estratégia para prevenir a prematuridade.
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