Sexta-feira, 13 de março de 2026
Por Redação O Sul | 11 de março de 2026
Uma pesquisa recém-publicada na revista científica Springer Nature revelou a presença de poluentes orgânicos persistentes (POPs) – substâncias químicas tóxicas que demoram muito para se degradar e se acumulam nos organismos – em aves marinhas encontradas na costa do Rio Grande do Sul e no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, localizado a cerca de 1 mil quilômetros de Natal (RN).
A exposição a esses compostos causa diversos problemas para a fauna. Entre os principais efeitos estão alterações hormonais, danos ao fígado, problemas no desenvolvimento e redução do sucesso reprodutivo, incluindo o afinamento da casca dos ovos e uma menor taxa de eclosão.
Os poluentes também podem comprometer o sistema imunológico e afetar o comportamento e a sobrevivência das aves.
As análises foram feitas a partir de amostras do tecido adiposo do fígado de 25 aves, sendo seis de espécies migratórias e uma nativa.
As aves migratórias foram encontradas na costa gaúcha:
– Pardela-grande (Ardenna gravis);
– Pardela-de-bico-amarelo (Calonectris borealis);
– Pardela-de-manx (Puffinus puffinus);
– Albatroz-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos);
– Albatroz-de-sobrancelha-preta (Thalassarche melanophris);
– Petrel-de-queixo-branco (Procellaria aequinoctialis).
Em relação à ave nativa, trata-se do atobá-pardo (Sula leucogaster), presente no arquipélago nordestino.
Todos os poluentes encontrados compartilham uma característica alarmante: estão banidos globalmente. O DDT (inseticida), o PCB (isolante elétrico e fluido térmico) e o Mirex (formicida) tiveram seus usos restringidos a partir dos anos 1960 e foram amplamente proibidos com a assinatura da Convenção de Estocolmo, em 2001.
A presença dessas substâncias indica uma tendência de bioacumulação — quando um organismo absorve um contaminante em uma velocidade maior do que consegue eliminá-lo ao longo da vida.
Mesmo anos após o banimento desses produtos, eles continuam circulando na cadeia marinha e acumulando-se nos tecidos dos animais.
“O que detectamos nas aves não indica necessariamente uso atual, mas sim a persistência ambiental dessas substâncias. São compostos extremamente estáveis, lipofílicos e resistentes à degradação”, afirma Janeide Assis Padilha, bióloga e autora principal da pesquisa.
Segundo a cientista, as substâncias podem permanecer no ambiente por décadas, sendo transportadas por longas distâncias pela atmosfera e pelos oceanos. O fato de essas aves ocuparem o topo da cadeia alimentar e possuírem alta longevidade favorece a bioacumulação.
“Como são espécies migratórias e utilizam diferentes regiões oceânicas, elas refletem a contaminação de amplas áreas marinhas. Isso significa que o impacto não é apenas individual, mas pode ter implicações populacionais e ecossistêmicas”, completa.
Além disso, ocorre o fenômeno da biomagnificação, em que a concentração dos contaminantes aumenta a cada nível da teia alimentar. Primeiramente, pequenos organismos contaminados são ingeridos por peixes, que depois são consumidos por predadores maiores, até chegarem às aves marinhas.
Risco para humanos
Embora as aves estejam no topo da cadeia alimentar, os seres humanos não estão isentos dos riscos desse grave problema ambiental.
Como as aves se contaminam consumindo principalmente peixes, moluscos e crustáceos — os mesmos animais que fazem parte da nossa dieta —, o alerta se estende aos pratos da população.
Como a acumulação da substância aumenta sua concentração a cada nível trófico alcançado, quanto maior for o organismo ingerido, maior será a contaminação.
“Quando esses peixes fazem parte da alimentação humana, ocorre a transferência desses contaminantes para o nosso organismo”, alerta a bióloga.
A exposição crônica a esses poluentes, mesmo em níveis baixos, pode causar alterações hormonais e impactos no desenvolvimento fetal e infantil, além de aumentar o risco de alguns tipos de câncer. O perigo, no entanto, depende da quantidade consumida, da espécie e da origem do alimento.
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