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Mundo Tribo mais ameaçada do mundo no Maranhão vive cerco de madeireiros e caçadores

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A região vive uma escalada de violência. (Foto: Reprodução)

Eles vivem da caça e da pesca, nus e sem contato com não indígenas em um pedaço da mata calculado em 3% dos 412 mil hectares da Terra Indígena Arariboia, no Maranhão. Semana após semana, contudo, esse exemplo raro do modo de vida indígena é progressivamente ameaçado pela ação de madeireiros e caçadores clandestinos, que invadem o território e obrigam os awás à perda de comida e frequentes deslocamentos, no que os transformou, segundo indigenistas, no grupo humano isolado “mais ameaçado do mundo”. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

Sem uma base de fiscalização da Funai (Fundação Nacional do Índio), da Polícia Federal e do Ibama na região —os agentes da União só aparecem de vez em quando—, os verdadeiros protetores dos awás são os índios guajajaras, que somam mais de 12 mil e criaram, em 2013, um grupo próprio de repressão a crimes ambientais, os “Guardiões da Floresta”.

A região vive uma escalada de violência. No último sábado (7), dois guajajaras foram mortos em um atentado em Jenipapo dos Vieiras (MA). Com isso, já são três índios da etnia assassinados neste ano.

“Eles [os awás] estão só nessa ‘bolinha’ de mata. Estão aqui pertinho de nós, a uns três quilômetros. Eles circulam de lá para cá. Queremos que a sociedade venha dar proteção não só para nós, mas para eles também. Eles não sabem se defender, eles não sabem falar [português], estão ali igual uma caça, com medo de zoada, de tiros, de coisas assim”, disse o cacique Paulo Providência Guajajara, 47, da aldeia Jenipapo.

“Os madeireiros já estão dentro da rota dos awás. Muitas vezes eles [índios] pegam o material deles, andam no barraco dos madeireiros, onde o sujeito chega com gripe, tossindo, joga gripe no mato. E aí, meu amigo, se [os awás] pegarem o vírus já era, acabam. A gente fica muito triste com isso, com essa injustiça da Justiça brasileira com a gente”, disse o coordenador dos “guardiões”, Olímpio Guajajara, 45.

O grupo de fiscais ambientais trabalha de forma voluntária e sem qualquer ajuda oficial, com motos em estado precário e armas obsoletas, como mosquetões.

Acompanhada de guajajaras, a Folha passou por um ponto na trilha de acesso entre duas aldeias que, segundo os índios, fica a menos de um quilômetro de onde os awás de Arariboia foram filmados pela primeira vez na história.

O “guardião” guajajara Ronilson Lima, 33, o Flái, atua em um coletivo de comunicação indígena chamado Mídia Índia. Com uma câmera pequena, ele registrou, no começo do ano, um grupo de quatro awás caminhando pela mata —as imagens foram exibidas em fevereiro pela TV Globo.

“Um pressentiu nossa presença, parece que cheirou algo no ar. Ele virou e me viu. Três deles se armaram com uma flecha. Eu fiquei com medo de fazerem alguma coisa, mas foram embora. Eu queria que eles me vissem para ficar com eles a minha imagem, para o caso de nos encontrarmos de novo”, disse Flái.

Está claro para os guajajaras que os awás preferem permanecer vivendo como hoje. Eles poderiam facilmente chegar à aldeia Jenipapo, onde vivem 55 famílias guajajaras, com apenas uma hora e meia de caminhada, mas nunca apareceram por lá.

Há cerca de um ano, um grupo de “guardiões” deixou, em um ponto da mata que eles sabiam ser frequentado pelos isolados, uma vasilha d’água, um facão e um machadinho. Os awás levaram as ferramentas, mas atravessaram a vasilha com duas flechas. Para os guajajaras, foi um sinal de “proibido entrar”.

O grupo de awás de Arariboia é estimado em 60 a 70 pessoas. Os guajajaras dizem que sempre souberam da presença deles na mata. Às vezes ouvem os cantos, de noite ou de madrugada, mas não entendem o que é falado.

“Desde criança a gente sabia dos awás. Meu pai era um grande caçador e os via na floresta. E sempre contava para nós: ‘Olha, tem parente que está morando dentro da mata’. Awá significa ‘os homens verdadeiros’, um nome tenetehara [guajajara]. Eles se chamam mesmo é ‘uwájanjara’”, disse o “guardião” Olímpio.

A interrogação sobre o futuro dos awás começou com as constantes invasões do território nos últimos 20 anos por madeireiros e caçadores.

Do ano passado para cá, contudo, o problema se intensificou. Segundo dados de satélite compilados pelo ISA (Instituto Socioambiental), os ramais abertos por madeireiros aumentaram 27% em um ano, atingindo 1.248 quilômetros dentro da terra indígena.

Os madeireiros entram inclusive com apoio de líderes indígenas subornados, segundo os guajajaras, e podem ter encontros fortuitos e fatais com os awás.

No organismo de um indígena isolado, uma simples gripe pode evoluir para uma pneumonia em apenas dois dias, segundo indigenistas.

“Não há mais como separar o lugar onde estão os madeireiros de onde estão os awás. Eles estão se misturando. Os awás estão onde ainda existe madeira. Mas se tirar a madeira, eles vão para onde? Os awás hoje não estão vivendo, estão sobrevivendo, o que é diferente”, disse o “guardião” Auro Guajajara, 34.

 

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