Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Por Vera Armando | 13 de novembro de 2025
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Por trás de cada criança com deficiência, há quase sempre uma mãe que carrega o mundo nos braços. Em muitos casos, são mães solo, mães com poucos recursos, que deixaram de lado carreiras e até o convívio social para se dedicar integralmente aos filhos que precisam de cuidados 24 horas por dia. São mulheres que vivem entre consultas, terapias, medicações e noites mal dormidas, sem poder se afastar nem por um instante.
O Estado, muitas vezes ausente, empurra para essas mães a responsabilidade integral por algo que deveria ser compartilhado pela sociedade como um todo.
Quando não há apoio institucional, o cenário é de desamparo. Se não é a APAE, a Kinder ou o Educandário São João Batista, essas crianças simplesmente ficam sem atendimento. São instituições que oferecem reabilitação, estímulo e inclusão. Sem elas, a maioria das famílias ficaria à deriva, tentando sobreviver em um sistema que ainda enxerga a deficiência com descaso e burocracia.
As deficiências são múltiplas e complexas. Há crianças com paralisia cerebral, síndrome de Down, autismo, osteogênese imperfeita, deficiência auditiva ou visual, e outras que convivem com deficiências múltiplas, exigindo atenção especializada, estrutura adequada e profissionais capacitados. Cada caso demanda um olhar singular, um planejamento individualizado e, acima de tudo, respeito à dignidade humana. Colocar todas essas crianças em um mesmo modelo de ensino sem preparo técnico é um erro grave.
É por isso que causa indignação o decreto do governo federal que pretende restringir as entidades assistenciais, como as APAEs, a atuar apenas no contraturno escolar. A medida obrigaria essas crianças a se matricularem em escolas regulares, muitas das quais não têm estrutura, formação docente ou recursos adequados para atendê-las. Forçar a inclusão sem suporte é uma forma disfarçada de exclusão. A verdadeira inclusão exige preparo, investimento e sensibilidade.
Neste contexto, a aprovação do Projeto que institui a Semana Municipal da Criança com Deficiência em Porto Alegre é mais do que uma conquista simbólica. É um gesto de reconhecimento e empatia com milhares de famílias que enfrentam, diariamente, uma jornada de amor, luta e resistência. A nova data, celebrada anualmente na semana do dia 21 de setembro, em sintonia com o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, surge para dar visibilidade a um tema muitas vezes invisível nas políticas públicas.
A iniciativa que coloca a capital dos gaúchos na vanguarda da atenção às crianças especiais é uma resposta concreta a essa necessidade de consciência e mobilização. A Semana Municipal da Criança com Deficiência vai promover palestras, seminários, atividades culturais, esportivas e campanhas educativas voltadas à sensibilização da comunidade escolar e da sociedade em geral. A proposta também prevê parcerias com entidades civis, instituições de ensino e empresas privadas, ampliando o alcance das ações e fortalecendo a rede de apoio.
Mais do que uma semana de eventos, a iniciativa busca despertar empatia e compromisso social. É um convite para que Porto Alegre olhe com mais carinho para essas crianças e para suas mães, verdadeiras heroínas anônimas. Nossas cidades só serão verdadeiramente justas e inclusivas quando todas as crianças, sem exceção, tiverem seus direitos respeitados e garantidos.
O desafio é coletivo. É da Prefeitura, das escolas, dos profissionais de saúde, dos legisladores e de cada cidadão. Porque a inclusão não é um favor, é um dever – e toda criança merece o direito de sonhar, aprender e viver com dignidade.
Vera Armando
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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