Sábado, 04 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 4 de julho de 2026
A Seleção Brasileira entra em campo neste domingo (5) para enfrentar a Noruega em partida válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos.
O jogo decisivo ocorre a três meses do primeiro turno das eleições presidenciais de outubro. No Brasil, o futebol tem forte impacto social e já foi explorado politicamente – a exemplo do que ocorreu na ditadura militar, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974).
Mas, nos dias de hoje, no maior período democrático da história do Brasil, o futebol e a busca pelo sonho do hexacampeonato mundial podem influenciar as eleições presidenciais?
O portal g1 perguntou a especialistas se o resultado nas quatro linhas é, de algum modo, levado em consideração pelo eleitor na hora de decidir o voto e como uma vitória, ou uma derrota, pode ajudar ou atrapalhar um candidato ao Palácio do Planalto.
Título ajuda o presidente de ocasião?
Renata Coelho, especialista de comportamento eleitoral, afirma que um título da seleção pode, de forma sutil, fortalecer a imagem do presidente que está no poder naquele momento.
Segundo a analista, o fenômeno não acontece de maneira racional no imaginário do eleitor, mas por meio de uma “transferência emocional”.
Durante momentos de mobilização e contentamento nacional, os cidadãos tendem, mesmo que por um curto período, a ficar mais satisfeitos com o cenário, inclusive com a situação do governo.
“Ninguém acorda depois de um título e pensa conscientemente ‘o Brasil ganhou, logo vou votar no presidente’. O que acontece é uma transferência emocional que gera um sentimento de satisfação com a situação atual das coisas, inclusive com o governo”, comentou Renata, que tem mestrado na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Gustavo Javier Castro, filósofo e mestre em ciência política e relações internacionais, afirma que as grandes vitórias da Seleção Brasileira costumam produzir um ambiente de euforia coletiva e de reforço simbólico da identidade nacional.
Em determinados contextos, de acordo com o filósofo, isso pode gerar ganhos indiretos para governos em exercício, sobretudo no plano da percepção pública e do humor social.
Contudo, segundo Castro, é importante evitar conclusões precipitadas, já que o contexto econômico, social e institucional do país é a principal influência.
“Um eventual título pode gerar um benefício simbólico momentâneo ao presidente, especialmente em termos de visibilidade e associação emocional positiva, mas dificilmente seria suficiente, por si só, para alterar estruturalmente cenários eleitorais”, afirmou Castro.
Em termos de bem-estar, um título mundial é uma experiência coletiva intensa. Mas esse efeito, segundo Renata Coelho, tem prazo de validade curto. “Ele se dissolve rapidamente quando a realidade do cotidiano volta à cena”, disse.
A analista cita a Copa de 1994 como o caso mais claro em que as condições se alinharam. O tetracampeonato chegou em um momento em que o Plano Real tinha acabado de ser lançado e havia uma expectativa genuína de virada econômica.
Na época, o eleitor celebrava o fim da hiperinflação e o título mundial. “Fernando Henrique Cardoso surfou nesse duplo alívio”, disse a especialista.
Entretanto, a analista de comportamento eleitoral lembra que, mesmo com o otimismo nacional, é impossível separar os efeitos do futebol e da economia. De acordo com ela, o título potencializa algo que já existe.
“Quando esse contexto favorável não está presente, o eleitor vai à festa, celebra com o presidente e, ainda assim, vota pela mudança”, disse.
Uma derrota pode impactar a disputa eleitoral?
Existe uma diferença entre o impacto político de uma vitória e o de uma derrota da seleção, segundo a especialista em comportamento eleitoral. Para Renata Coelho, isso tem relação com a forma como as pessoas processam emoções.
“A decepção é mais memorável e mais duradoura do que a euforia”, analisou.
Renata Coelho afirmou que a derrota do Brasil para o Uruguai, no Maracanã lotado, em 1950, tornou-se um trauma nacional por gerações.
Em 2014, a derrota, por 7 a 1, para a Alemanha entrou imediatamente na linguagem política como metáfora de vergonha e fracasso. A goleada em território brasileiro chegou a ser explorada nas manifestações que antecederam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Mas nem toda derrota tem consequência eleitoral direta. A especialista frisa que o que diferencia os dois momentos não é o resultado em campo, mas o contexto fora dele.
Uma derrota pesada não muda o voto por si só, mas pode, segundo Renata, reativar insatisfações que já existiam e que o eleitor ainda não conseguia articular com clareza.
“Ela funciona como um gatilho emocional, aquele momento em que alguém que já estava insatisfeito com o governo encontra uma imagem para nomear o que sente. O futebol empresta seu vocabulário à política”, afirmou. Com informações do portal G1.
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