Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 20 de julho de 2020
Conhecida como um dos últimos países de cultura nômade no mundo e por estar localizada entre dois gigantes, a Mongólia agora ganha destaque por sua estratégia bem-sucedida contra o coronavírus.
O país ostenta um feito extraordinário: desde o início da pandemia, não registrou nenhum caso de transmissão local de Covid-19 e nenhuma morte atribuída ao novo coronavírus. Zero.
E tudo isso mesmo levando-se em conta que o país tem algumas características que, em tese, o colocariam em posição vulnerável.
A Mongólia faz fronteira com a China, onde se identificou pela primeira vez o vírus que tem mexido com todo o planeta. E tem estreitos laços com a Coreia do Sul, que experimentou um dos primeiros surtos, depois de Wuhan, e onde existe uma população relativamente grande de trabalhadores mongóis.
Mas a pequena Mongólia, de 3,2 milhões de habitantes, agiu rápido, de forma contundente e holística, com uma estratégia elogiada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mas que não recebeu tanta atenção internacional.
O vizinho do sul
Voltemos alguns meses na linha do tempo. Estamos em janeiro de 2020 e, quando o mundo todo ainda presta atenção na virada de ano, más notícias começam a ser confirmadas na China.
7 de janeiro – Pequim confirma a existência de um novo coronavírus, um patógeno da mesma família do causador da Sars, que preocupou especialmente a Ásia no início dos anos 2000, deixando quase 800 mortos e mais de 8 mil casos em todo o mundo, a maioria naquela região;
20 de janeiro – Autoridades chinesas confirmam que o novo coronavírus, que acabaríamos conhecendo como SARS-CoV-2, pode ser transmitido entre seres humanos. Na época, havia apenas quatro mortes confirmadas no país e cerca de 200 casos registrados.
As notícias do país vizinho ao sul chegam a Ulan Bator, capital mongol, que age rápido.
Entre as medidas, estão o fechamento de escolas (a partir de 24 de janeiro), restrições de movimento vindo da China (a partir de 31 de janeiro) e, posteriormente, fechamento total de fronteiras e suspensão de todas as viagens aéreas, ferroviárias ou rodoviárias internacionais.
Além disso, outra medida controversa e sem precedentes: o cancelamento das celebrações do Tsagaan Sar, o Ano Novo lunar mongol.
“Como resultado desses primeiros passos, o país conseguiu ganhar um tempo valioso para fortalecer (seu sistema de preparação)”, disse o escritório regional da OMS na Mongólia à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
As razões, para a OMS, são claras: medidas precoces e firmes, mas também um sistema de rastreamento de casos para detectar contágios o mais rápido possível, localizar contatos e interromper a transmissão com a participação da população.
Lições da Sars
Nesta pandemia, a Mongólia testou um sistema que está em construção há uma década, desde a eclosão da Sars no início dos anos 2000, mas também de um novo vírus da influenza A (H1N1), que se tornou uma pandemia em 2009.
Entre os destaques da resposta da Mongólia está um sistema de vigilância multissetorial, que detecta qualquer incidente e emite alertas para as agências de saúde e outras áreas, como a imprensa, em uma abordagem “que abarca toda a sociedade”, segundo a OMS.
“As autoridades abriram linhas de comunicação direta e expandiram suas ações contra a Covid-19 em um estágio inicial do surto”, acrescentam eles, com sessões de informações conjuntas entre o governo e a OMS transmitidas por diferentes canais ou redes sociais.
E a população ouviu.
“Graças à ação do sistema de saúde da Mongólia, tanto o governo quanto a população ficaram muito preocupados com o vírus e as pessoas seguiram a todas as recomendações”, disse à BBC News Mundo Baljmaa T., jornalista de Ulan Bator.
Casos importados
O uso de máscaras — uma prática à qual, como grande parte da população asiática, os mongóis estão acostumados — também tem sido destacado por especialistas do país.
Desde janeiro, o governo exigiu o uso de máscaras nos espaços públicos e para trabalhadores, funcionários de bancos, lojas ou mercados, sob o risco de multas de 54 dólares (R$ 290).
Equipes de saúde e líderes comunitários insistiram na importância dessa prática, assim como da lavagem das mãos, disse o oncologista Gendengarjaa Baigalimaa.
“Essas medidas ajudaram imensamente a conter a disseminação da covid-19. Elas também significaram uma redução drástica no número de casos de gripe”, explicou.
O primeiro caso de Covid-19 foi detectado na Mongólia no início de março: um cidadão francês que viajou para o país desde a Rússia e se recuperou com sucesso.
Desde então, e até 14 de julho, 243 casos foram registrados, todos importados. Destes, 204 se recuperaram.
A OMS reconhece que sempre há a possibilidade de haver casos que não serão detectados, mas a entidade afirma que as fontes disponíveis sugerem que não há evidências de transmissão local pela comunidade.
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