Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019

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Bem-Estar O verde da maconha em breve pode ganhar tons amarelos, reproduzindo as cores do Brasil

Uso das substâncias ganhará rigor científico e padronização ainda inéditos no mundo (foto: reprodução)

O verde da maconha em breve pode ganhar tons amarelos, reproduzindo as cores nacionais do Brasil. Cada vez mais utilizados como tratamento alternativo para diversas condições de saúde, compostos da planta, como o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), são alvo de projetos de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que devem levar ao desenvolvimento do primeiro fitomedicamento à base de maconha no País. Com isso, o uso das substâncias ganhará rigor científico e padronização ainda inéditos no mundo, guiando sua aplicação terapêutica.

“A situação que temos hoje é complicada. A maconha e substâncias nela contidas têm propriedades terapêuticas reconhecidas internacionalmente, e disso não há dúvidas, mas ainda há uma confusão muito grande para seu estudo, principalmente por conta da proibição, que dificulta bastante as pesquisas”, justifica Virgínia Martins Carvalho, professora de Toxicologia da UFRJ

Farmacannabis
Virgínia teve aprovado um projeto de extensão na instituição, intitulado Farmacannabis, cujo objetivo principal é analisar a composição dos extratos de maconha com fins medicinais.

Avaliações feitas pela Administração para Alimentos e Drogas de alguns dos extratos mais vendidos nos EUA, verificou que quase nenhum deles continha as proporções de CBD e/ou THC indicadas em seus rótulos. Além disso, muitas famílias brasileiras não têm condições de arcar com a compra dos importados – um vidro dos óleos americanos custa por volta de 300 dólares (cerca de 1 mil reais) –, e acabam plantando maconha e fazendo os compostos em casa, ou obtêm estes de fabricantes artesanais.

“Ninguém sabe de fato qual o grau farmacológico destes extratos, isto é, qual a concentração de CBD e THC neles”, conta Virgínia. “Isto dificulta o controle e a eficácia da dosagem, já que, embora o médico possa prescrever e acompanhar o tratamento, ele não tem ideia de exatamente quanto CBD e THC a criança está tomando. Com o Farcannabis, vamos dar suporte analítico tanto para os pacientes e suas famílias quanto para os médicos.”

Ainda de acordo com Virgínia, até o fim do projeto também deverá estar em funcionamento uma plataforma digital de acesso gratuito na qual, médicos e familiares poderão obter mais informações sobre os possíveis usos medicinais da maconha e os resultados das análises feitas durante a iniciativa.

“A maconha tem cerca de 70 canabinoides e seus ácidos, cada um deles com suas propriedades e efeito”, destaca Virgínia. “Nenhum destes canabinoides existe isolado, e precisamos saber como eles atuam entre si, em particular o THC e o CBD. Eles têm uma ação dinâmica no sistema nervoso central, que varia de pessoa a pessoa. E é por isso que conhecer suas proporções nos extratos é muito importante. Precisamos saber porque algumas pessoas se beneficiam mais de extratos que tenham mais THC e outras de extratos com mais CBD.”

Fio-cannabis
Esta investigação também será fundamental para o projeto na Fiocruz. Lançado em 2016 com a criação de um grupo de trabalho do qual Virgínia faz parte, o Fio-cannabis discute a viabilidade e formatação de uma ampla e longa pesquisa científica com intuito de, provada sua eficácia e segurança, fabricar um fitomedicamento de Cannabis para alívio da epilepsia refratária.

Com uma tríade de segurança, eficácia e qualidade igual à de qualquer medicamento, Hayne Felipe da Silva, diretor do Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz, pretende chegar a um produto feito no Brasil com custo menor e que possa vir a ser distribuído pelo SUS (Sistema Único de Saúde), além de dar a ele o rigor de medicamento que não há nos EUA.

De acordo com o pesquisador, a expectativa é de que, até o fim do ano, o projeto de pesquisa esteja pronto para ser encaminhado à Anvisa, com os estudos começando na prática já este ano. Ao todo, ele espera que o processo de desenvolvimento do fitomedicamento leve de cinco a dez anos.

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