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“Ozonioterapeuta” é acusado de abuso sexual e exercício ilegal da medicina

Homem está sendo processado sob acusação de exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e violação sexual mediante fraude. (Foto: Reprodução/Facebook)

Uma aplicação de gás que prometia curar de dor nas costas a varizes, passando por infertilidade, atraía os pacientes à Clínica Bem Viver, no interior de São Paulo. Mas a ozonioterapia ministrada pelo mineiro Raphael Gustin da Cunha, de 36 anos, em alguns casos piorava a situação de seus clientes. Agora, Cunha, que não respondeu aos pedidos de entrevista e cujo consultório já não funciona, está sendo processado sob acusação de exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e violação sexual mediante fraude.

Dez pessoas que passaram por sua clínica relataram ao jornal O Globo que Cunha ora se apresentava como nutricionista, ora como nutrólogo ou homeopata – estas duas, especialidades médicas. Segundo o CFM (Conselho Federal de Medicina) e os conselhos regionais de nutricionistas em São Paulo e Minas, Cunha não tem permissão para exercer nenhuma das duas profissões.

Uma dessas pacientes já entrou na Justiça contra o mineiro, nas esferas civil e penal. Os outros clientes, homens e mulheres, estudam que medidas tomarão. Eles foram atendidos nos últimos dois anos em dois locais: em 2017, Cunha atendia em Taubaté; em 2018, em Santo Antônio do Pinhal. Ambos os consultórios foram fechados.

Sob condição de anonimato, a paciente afirmou ter sofrido violência sexual. Segundo ela, que o procurou no início de 2018, após receber um panfleto na rua, Cunha fez aplicações retais de ozônio para tratar uma insuficiência suprarrenal.

“Ele costumava colocar um cateter e aplicar o gás com uma seringa ou com uma mangueira. Da última vez, doeu muito. Ele riu das minhas reclamações. Nunca mais voltei. Na época, eu não sabia dizer o que tinha acontecido, só me sentia suja, confusa e culpada. Hoje sei e posso dizer: sofri um estupro na sala de atendimento”.

Para a advogada que a representa, a violação se deu mediante fraude pelo fato de Cunha não ser médico nem nutricionista: “O contexto em que ocorreram a prestação de serviço, o contrato financeiro e o descumprimento da obrigação permite à requerente o pedido de instauração de inquérito policial para apuração de mais de um crime que, se resultarem em condenação em ação penal, podem levar a pena privativa de liberdade do réu”, afirma Tula dos Reis Laurindo.

Outra mulher que frequentou a clínica disse ter sido sexualmente abusada: “Comecei trabalhando lá como secretária, então ele soube que eu estava tendo dificuldade para ter filhos. Me disse que, se fizesse um tratamento, em três meses engravidaria. Ele colocava o dedo na minha vagina e depois introduzia uma mangueira de ozônio”.

O presidente da Aboz (Associação Brasileira de Ozonioterapia), Arnoldo de Souza, explica que o tratamento pode ser feito de várias formas, mas nunca com uma mangueira. “Há, sim, injeção de gás por via anal ou vaginal, mas feita com uma seringa. A ozonioterapia precisa ser regulamentada para que o CFM possa fiscalizar e evitar casos de charlatanismo e abuso.”

Efeitos colaterais

Os demais relatos reúnem outros tipos de queixa, incluindo efeitos colaterais como ardências e descamações na pele, dores de cabeça e no corpo, falta de ar e cansaço. Em um tratamento para dores nas costas, por exemplo, uma paciente afirmou que “sentia o gás correr por toda a coluna, a dor ia até o pescoço”.

“Um dia, não consegui dormir por causa do incômodo, levantei para pegar água e desmaiei. Fiquei preocupada e fui pesquisar o número do registro de nutricionista com o qual ele assinava as receitas. Descobri que não havia aquele registro no banco de dados do conselho regional. O questionei sobre isso e ele me ameaçou. Fiquei com muito medo”.

O paciente Marco Aurélio Grandchamp contou ter feito três sessões de “hemoterapia”: segundo ele, Cunha tirava sangue de seu braço, passava-o por um equipamento para misturá-lo com o gás, e o devolvia ao corpo com uma injeção intramuscular. A terceira sessão foi na casa de Cunha, em Taubaté: “Ali, ele mostrou não respeitar nenhum preceito de higiene. Não usou luvas, não tinha material descartável. Fico pensando quais riscos de contaminação eu corri”.

Outra paciente afirmou ter procurado a clínica com seu ex-marido, para que cada um fizesse dois pacotes de dez sessões, em 2018. “Pelo primeiro pacote, pagamos juntos em torno de R$ 2 mil; pelo segundo, meu ex-marido pagou R$ 1 mil e eu, que tinha outros tratamentos, paguei R$ 4 mil. Dessa leva, fizemos apenas duas sessões. Depois disso, eles pararam de atender o telefone. Fui à clínica e me surpreendi ao encontrá-la completamente fechada e abandonada. Ele sumiu”.

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