Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 13 de outubro de 2017
Nas últimas duas semanas, ao menos 20 atrizes, modelos e assistentes disseram ter sido assediadas ou estupradas por Harvey Weinstein, magnata do cinema americano e cofundador da Miramax, produtora de clássicos como “Pulp Fiction”, e da The Weinstein Company.
Em 2015, 45.460 casos de estupro foram registrados no Brasil, ou 22,2 casos a cada 100 mil habitantes, segundo dados do anuário do Fórum Brasileira de Segurança Pública de 2016. Especialistas estimam, porém, que esse número representa entre 10% e 15% do total.
Por que a maioria das mulheres não denunciam esses crimes? A promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo Silvia Chakian, do GEVID (Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica), destaca alguns dos motivos.
A banalização e normalização do assédio sexual faz com que muitas mulheres não consigam identificar o ato como assédio sexual. Outras pensam que aquilo “faz parte do jogo”.
Ao jornal The New York Times, a atriz Katherine Kendall expressou sua preocupação depois de ter sido abordada por um Weinstein nu em seu apartamento: “Ele não me tocou. Não tinha certeza se as pessoas ligariam. Se eu não estava sangrando, destruída, quem se importaria?”
“São crimes de difícil comprovação, que acontecem por sua própria natureza de forma velada, entre quatro paredes e longe do olhar de testemunhas”, diz Chakian.
Vítimas de violência sexual têm medo de morrer, de serem violentadas mais vezes, de terem seus filhos agredidos. Para Chakian, a violência sexual também “mina a autoestima da vítima e a humilha, acabando com sua capacidade de resistência”.
“Ainda há a ideia absurda de que a violência sexual refletiria a ‘desonra’ da vítima ou de que ela pode de certa forma ter tido algum comportamento que incentivou ou encorajou aquela prática.”
A promotora lembra que há mulheres que deixam de denunciar porque têm medo de serem responsáveis “pelo fim da carreira de um sujeito”. “Muitas pensam: ‘O sujeito tem família, carreira, eu vou destruir isso?”.
“Por que entrou naquela sala à noite?”, “Estava sozinha?”, “Você não estava com uma saia curta?” são perguntas ouvidas por mulheres que denunciam casos de assédio – uma forma de perguntar: “Você não assumiu o risco?”.
“Existe essa perversidade na análise da palavra da mulher vítima de violência sexual. A análise do comportamento é deslocada para a vítima, não para o violador”, diz Chakian.
A sociedade e as instituições acabam incutindo, assim, a culpa na vítima. “Sua palavra é sempre analisada como possível falsa denúncia.”
7) Vítimas têm medo de reviver experiência
“A mulher não quer reviver a violência sexual. E ela é instada a contar sua história por parte das instituições e depois é confrontada e submetida a novas oitivas”, diz Chakian, explicando que isso faz com que a vítima tenha que reviver diversas vezes o caso.
Quando o assédio é no trabalho, vítimas temem perder o emprego.
É o caso da maior parte das mulheres vítimas de Weinstein. Emily Nestor, uma assistente que trabalhou com ele em 2014, disse à revista New Yorker que teve “muito medo” dele. “Sabia como ele era bem relacionado. Se o irritasse, nunca teria uma carreira na indústria.”
Há um medo “justificado”, diz Chakian, “de ser exposta e não haver resultado” – caso de algumas das vítimas de Weinstein que o denunciaram.
As dificuldades para denunciar casos de assédio não são só na polícia, avalia Chakian. “Há dificuldades de acesso a canais oficiais, como o departamento de recursos humanos das empresas”, diz.
A forma como as instituições tratam a mulher pode levá-las à revitimização, ou seja, vitimá-las com perguntas que incutem a culpa nela.
“Homens de Hollywood, vocês acham que o que aconteceu é muito triste, mas não é seu problema?”, perguntou a atriz americana Lena Dunham em um artigo para o jornal The New York Times nesta semana. “Infelizmente, é problema de todos nós (…) O silêncio de Hollywood, especialmente o de homens que trabalharam ao lado de Weinstein, só reforça a cultura que impede as mulheres de falarem.”
Crimes como esses comumente são varridos para baixo do tapete, tratados como se fossem um problema da vítima e do criminoso. Há casos, diz Chakian, em que não é “conveniente” escancarar o comportamento de um sujeito bem-quisto e bem relacionado na empresa ou de um chefe.
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