Domingo, 14 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 1 de agosto de 2021
O governo prepara uma ofensiva a partir desta semana para tentar acabar com limites impostos pelo Código Florestal e legalizar terras na Amazônia que hoje não estão regularizadas. Na prática, porém, a ação pode incentivar o desmatamento e a grilagem. O plano já está pronto.
O Palácio do Planalto pretende pegar carona na tramitação de uma proposta sobre a regularização fundiária, que já está na Câmara, e apresentou as mudanças que deseja implementar na legislação por meio de um projeto alternativo, uma emenda substitutiva.
A versão fragiliza a proteção ao meio ambiente, já que permite a legalização de terras ocupadas após 2008. No texto avalizado pelo Planalto, o marco passa a ser 2012 e, em alguns casos, 2014. Isso significa o fim de importante medida para a preservação da floresta, pois aumenta o escopo de terras que poderão ganhar nova titularidade e, eventualmente, ser exploradas.
A postura do Executivo diante do tema já gerou atritos e desentendimentos entre líderes, mas o Planalto não dá sinais de recuo. Pelo contrário: quer ampliar a concessão de títulos de terras e, se houver discordâncias, resolver a questão no voto.
A regularização fundiária é debatida há mais de um ano na Câmara. A versão mais recente, relatada pelo deputado Bosco Saraiva (SD-AM), já era considerada permissiva por ambientalistas. O substitutivo foi apresentado pouco antes do recesso por um dos vice-líderes do governo, o deputado Evair de Melo (PP-ES).
O parlamentar nega que o texto estimule grilagem ou desmatamento e diz que tem o apoio de Bolsonaro. Afirma que os questionamentos são apenas “um entendimento diferente” de opositores. Empenhado, o deputado diz que, a partir de terça-feira (3), iniciará uma rodada de conversas com os ministros Ciro Nogueira (Casa Civil) e Flávia Arruda (Secretaria de Governo) para intensificar a articulação política.
“Esse é um tema que ficou em aberto (antes do recesso parlamentar). Mas vou ficar com o meu texto, segundo a orientação do governo, e pedir o apoio. Estamos fechados com o meu texto. Esse é o texto do governo. Se não tiver jeito, vamos ao voto. O que vale é o painel”, disse Melo.
Menos vistoria presencial
A versão do governo não é polêmica apenas neste ponto. Ela também amplia a possibilidade de inspeção de terras por sensoriamento remoto (identificação por imagem de satélite), sem fiscalização presencial.
No texto do relator, essa regra valeria para propriedades de até seis módulos fiscais — medida agrária com parâmetro variável a depender da região do País. O governo, no entanto, tenta estender esse tipo de inspeção para “propriedades médias”, sem especificar o que isso significa. Segundo o entendimento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), uma propriedade média pode ter até 15 módulos fiscais, equivalente ao dobro do tamanho indicado pelo relatório inicial.
As mudanças e a movimentação do governo irritaram o autor original da proposta, o deputado Zé Silva (SD-MG). Ele ameaça arquivar o projeto se o governo se negar a dialogar. Caso o arquivamento se confirme, o Congresso terá dificuldades para tratar de qualquer regularização. O parlamentar compara a redação abençoada pelo Planalto à primeira versão de Medida Provisória (MP) editada por Bolsonaro sobre o tema. Esta perdeu a validade e, por divergências, não foi votada.
Antes do recesso, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), chegou a tentar fazer uma ponte entre governo, ruralistas, ambientalistas e os deputados que estavam à frente da elaboração do texto, mas não obteve sucesso.
Críticas
Governistas irritaram também o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM), que apoiava o texto do relator Bosco Saraiva. Deputado do Amazonas, Ramos considera essa uma pauta prioritária para regularizar a situação de pequenos proprietários.
“Essa atitude do deputado Evair de apresentar um substitutivo é uma atitude desleal. A posição da bancada ruralista é pendular. Já publicaram notas públicas a favor do texto do Zé Silva. Mas, quando o assunto vai se encaminhando para o plenário, parece que as forças mais atrasadas ganham vida”, diz Ramos.
Presidente da bancada do Meio Ambiente, Rodrigo Agostinho (PSB-SP) acredita que os ruralistas devem pressionar para levar ao plenário o projeto logo na volta do recesso. Ele tinha discordâncias até mesmo da primeira versão do texto.
“Essa proposta do Evair é muito ruim porque regulariza invasões recentes, incentivando o desmatamento”, diz Agostinho.
Antes do recesso, os parlamentares aceleraram a tramitação do tema aprovando um requerimento de urgência. Isso significa que a pauta pode ser votada a qualquer momento. O relator, Bosco Saraiva, também é contra a flexibilização do governo.
“Se o autor Zé Silva desejar retirar o projeto de pauta terá meu apoio, pois a lei deve beneficiar os pequenos produtores e o País, jamais, de forma alguma, beneficiar qualquer grupo mais restrito”, declarou Saraiva.
Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!
As terras da União devem ter uma grande reserva que fique com ela mesma.
Outra parte com estados para criar parques de preservação.
É uma parte distribuída com muito critério aos pequenos agricultores, mas fiscalizada pq esses na maioria agridem e são impunes porque pequenos.
Os grandes devem comprar a terra se interesse em produzir.