Terça-feira, 29 de setembro de 2026

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Edson Bündchen Borboletas contingentes

Compartilhe esta notícia:

Tudo está em mutação, mas apenas o que permanece é – e o que permanece, senão a própria mudança?” Assim proclamando, o grego Heráclito inaugura a impermanência, num tempo tão antigo que uma frase da espécie poderia soar fora de contexto, na histórica Éfeso, onde nascera. Mas não mais. Depois dele, lentamente, ou em saltos, a humanidade passou a experimentar ciclos de mudança cada vez mais profundos, redundando numa interdependência tal que o bater de asas de uma borboleta em Berlim ocasione um tornado no Texas, conforme antecipava o professor Edward Lorenz, para uma atenta plateia, num encontro de cientistas, no já distante ano de 1969. A inauguração da “Teoria do Caos” coincide com a ascensão da visão sistêmica, na qual os elementos estão inextrincavelmente vinculados, influenciando de modo decisivo campos do conhecimento tão diferentes quanto a sociologia, a neurobiologia, a filosofia, as ciências sociais de forma geral, e até a arquitetura! Mais do que enxergar os fenômenos isoladamente, buscava-se uma forma de compreendê-los como fluxos em transformação, numa interação crescentemente dinâmica, e até certo ponto caótica.

A apropriação dos fundamentos da teoria dos sistemas não fica restrita, como se percebe, a uma determinada área, mas invade e influencia decisivamente o cotidiano de bilhões de pessoas, uma vez que a economia e a política também são afetadas diretamente por seus pressupostos. Assim, é lícito buscar entender alguns porquês e equívocos em abordagens de temas contemporâneos, criticamente vitais para o nosso futuro enquanto comunidade global, interagente, interligada e dependente, no sentido de uma articulação capaz de prover soluções efetivas através de suas políticas. Nessa perspectiva, a questão ambiental, o aumento da pobreza decorrente da atual pandemia, e a solidez das instituições, embora separadas conceitualmente, estão umbilicalmente ligadas quando consideradas a partir de suas inter-relações, no campo metafórico de um organismo vivo, integrado e complexo. A ausência desse nível de alcance, compromete não apenas o entendimento, mas uma interferência eficaz sobre os problemas a serem atacados.

Desse modo, a miopia dos governantes quanto às implicações sistêmicas de uma árvore sendo ilegalmente derrubada na Amazônia Legal, tem a mesma raiz daquele que não absorve a essência das interconexões provenientes da complexidade do “efeito borboleta”. Em outras palavras, essa mesma árvore ceifada e que hoje é ignorada, estará conectada a um contrato de exportação não concretizado no futuro, cujas motivações a montante talvez sejam impossíveis de precisar, sem recorrer a esse exercício de efeito causal regressivo. É também dessa forma quando se discutem os efeitos da Covid-19 sobre a pobreza, e não se encontram argumentos para justificar um inadiável apoio financeiro aos alijados do trabalho. Também aqui, a falta de visão do todo interdita uma decisão mais assertiva e tempestiva. A miopia sistêmica ainda se encontra e aflora toda a vez que ataques são feitos ao arcabouço institucional, seja a qualquer um dos poderes, particularmente e de modo insidioso quando as próprias prerrogativas democráticas, como a liberdade de expressão, são usadas para ferir a democracia, que em última instância lhe confere esse direito. São contradições todas nas quais carece o sistêmico e prevalece o ocluso, o isolado.

O conceito de aldeia global já não é novidade. O que chama a atenção é a incapacidade de muitos em assimilar aquilo que Heráclito, Lao Tsé e tantos outros já intuíam muito antes de Cristo, de que existe um fluxo eterno de mudanças, e que elas são interdependentes. Mais grave, perante essa realidade mutante, é que a aceleração provocada pelas modernas tecnologias tornou o custo dessa incompreensão mais trágico para a sociedade, impondo reposicionamentos urgentes dos modelos mentais, de forma que a impertinente borboleta a bater asas ao seu lado, não seja a causa de sua própria derrocada.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Edson Bündchen

Deixe seu comentário

Os comentários estão desativados.

Dedo na tomada
Câmara dos Deputados aprova às pressas tramitação de proposta que dificulta prisão de parlamentares
Pode te interessar