Quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 4 de março de 2021
Os dados de mobilidade de celulares no Brasil indicam que o aumento explosivo nas mortes por covid-19 registrada nos últimos meses é, em boa medida, resultado da exposição a que brasileiros se submeteram em feriados de dezembro a janeiro, sobretudo durante as compras de Natal e o Ano Novo.
O que era receio de alguns especialistas se confirmou nos dados anônimos de rastreamento de aparelhos feitos pelo Google que mostram como a alta movimentação de pessoas em áreas públicas simultaneamente em períodos específicos pode ser facilmente atrelada ao aumento subsequente do número de casos da doença nas regiões avaliadas. Em alguns Estados, a movimentação vista no carnaval pode agravar a situação.
O Réveillon foi a data com maior concentração de pessoas em áreas classificadas como “parques” (que incluem praias e espaços públicos de recreação). No início de janeiro, a circulação de brasileiros nesses locais foi equivalente à de níveis anteriores da epidemia.
Após a virada do ano, esse tipo de concentração caiu, mas aumentou no feriado prolongado seguinte. Nas praias e áreas recreativas do Rio de Janeiro, a terça-feira de carnaval foi o dia mais movimentado desde a chegada da covid-19 no Brasil, 26% acima da linha de base estabelecida pelo Google (média de presença de celulares medida nas locações em janeiro de 2020, para “calibrar” o que seria o nível normal de presença de pessoas em cada lugar antes da pandemia).
O Rio de Janeiro, por exemplo, teve movimentação intensa no feriado local de 20 de janeiro, também. E, mesmo com a pandemia avançando, a população não parece muito preocupada em seguir os protocolos básicos de distanciamento: o Rio registrou na última semana a menor taxa de isolamento social desde o início da pandemia: de 30%, entre 21 e 28 de fevereiro.
O cenário atual da epidemia, com o recorde de 1.910 mortes registradas no Brasil em um único dia já é assustador, e o impacto do carnaval ainda está por ser medido. Para que se reflita nas estatísticas de óbitos, é preciso aguardar.
O infectologista Júlio Croda, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, relata preocupação:
“O impacto pode ser muito maior do que as aglomerações que vimos no passado porque temos variante mais transmissível e carga viral maior. É preciso aumentar a adesão a medidas individuais de proteção e a velocidade de vacinação. Se não tem nenhum dos dois, há aumento da taxa de transmissibilidade.”
Croda, que planejou a reposta ao coronavírus na gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, destacou que Manaus, após taxa de óbitos brutal em janeiro, agora registra queda devido a ações implementadas.
“O que ocorre lá é o impacto de medidas restritivas severas e aumento da cobertura vacinal. Vacinação com medida restritiva é o que dá certo”, afirma.
Amazonas é hoje o único estado que voltou ao nível de distanciamento social comparável ao das primeiras semanas de pandemia. Em janeiro de 2021, auge da segunda onda, a frequência a parques desceu 53% abaixo da linha de base, mas o Estado já retoma a movimentação.
Carnaval
Não foi só no Rio que o Google registrou mobilidade preocupante no carnaval. Elas ocorreu em pelo menos mais quatro estados: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e, com menos intensidade, na Bahia. Pernambuco, de tradição carnavalesca forte, não pareceu ter grande aumento.
“Os sistemas de saúde do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina já colapsaram, e eles estão adotando medidas restritivas tardiamente. A capacidade do estado de resposta é muito maior que a de Manaus. Não vai ter falta de oxigênio, mas vai ter falta de leitos de terapia intensiva” — diz Croda.
Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, diz que a aglomeração no carnaval carioca ocorreu num momento de redução de transmissão do vírus, e seu efeito ainda não está claro.
“Em outras regiões do país, que estavam iniciando movimento de segunda onda, haverá uma aceleração. No Rio, a gente recomenda não fechar leitos e não reduzir equipes de saúde, porque a gente não sabe o que vai acontecer daqui a dois ou três meses”, diz o médico.
Além da conversão de leitos hospitalares comuns para leitos de covid-19, Chebabo defende medidas de restrição de circulação:
“O toque de recolher é para diminuir aglomerações que não trazem nenhum benefício e aumentam muito o risco de transmissão, sobretudo bares.”
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