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Por Redação O Sul | 24 de maio de 2021
A Argentina atravessa o seu momento mais severo da pandemia de covid-19, tendo registrado na última semana os seus piores números relativos a novas infecções. Mesmo diante da resistência de vários setores econômicos e políticos, passou a valer no último sábado (22) uma nova quarentena nacional de nove dias, decretada pelo governo de Alberto Fernández na última quinta-feira.
O último domingo (23), chuvoso, colaborou com as restrições, fazendo com que poucos transeuntes fossem vistos no centro de Buenos Aires. Os controles policiais também foram reforçados, especialmente nas entradas que separam a capital da periferia.
No ano passado, o país foi o primeiro da América do Sul a impor uma quarentena em todo o seu território, que durou quase três meses, de março a junho.
Nos últimos sete dias, a média diária de novos casos teve alta de 31% em comparação à semana anterior, chegando a quase 32 mil. A aceleração foi brusca: entre as duas semanas prévias, o crescimento havia sido de 8%. Já a média de falecimentos, entre 16 e 22 de maio, foi de 491 pessoas por dia, em um país de 45 milhões de habitantes.
No domingo, a Argentina superou os EUA em quantidade absoluta de novos infectados e ficou atrás apenas de Índia e Brasil, segundo o site Our World in Data, que coleta dados globais.
A covid-19 também está afetando pessoas mais jovens. A faixa etária com maior número de óbitos nesta segunda onda é a de pessoas entre os 60 e os 74 anos, que são 44% do total de novas vítimas fatais. Idosos entre 75 e 89 anos, que na primeira onda eram o grupo mais atingido, agora são 25% dos mortos. O número de vítimas entre 45 e 54 anos subiu de 12% para 20%.
As novas medidas de isolamento dividem a sociedade, num país cuja economia começava a dar sinais de recuperação após três anos de recessão, intensificada em 2020, quando o Produto Interno Bruto despencou 9,9%.
Em março, a atividade econômica argentina registrou aumento de 11,4% em relação ao mesmo mês do ano passado, quando teve início o longo período de confinamento. Com isso, acumulou crescimento de 2,4% no primeiro trimestre na comparação com 2020, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). A produção industrial, por sua vez, cresceu 32,8% na comparação anual em março.
“Estamos retrocedendo um ano, e na verdade, estamos piores do que antes, porque as pessoas estão em pior situação econômica, estão de mau humor”, queixou-se à AFP Angel López, 59 anos, que trabalha com gastronomia, um setor muito afetado.
Cerca de 8,6 de pessoas, ou 19% da população, receberam a primeira dose da vacina. A segunda dose foi aplicada em 2,3 milhões de argentinos. O governo espera a chegada nos próximos dias de cerca de seis milhões de doses da AstraZeneca-Oxford e Sputnik V, que começou a ser produzida localmente.
O presidente do país, Alberto Fernández, analisou em entrevista a um canal de televisão no domingo a situação sanitária do país. Ele afirmou que, desde o retorno às aulas presenciais em março, as infecções em crianças e adolescentes subiu 110%. A nova suspensão do comparecimento às escolas inicialmente duraria só 15 dias, mas foi prorrogada e se estenderá por mais de um mês. Fernández afirmou que todas as decisões foram baseadas “em decisões do Conselho Federal de Educação”.
“Os meninos precisam estar nas salas de aula. Dediquei parte da minha vida à educação como professor e sei a importância da presença, mas não podemos colocar as pessoas em risco. Temos que evitar o contágio”, disse ele. “Gostaria que a oposição também entendesse a crise em que estamos e que não se pode fazer política com isso, porque é muito grave, porque colocamos em risco a vida das pessoas.”
O presidente está sob pressão também do setor empresarial. O presidente da Câmara de Comércio Argentina, Mario Grinman, disse a uma rádio no domingo que a situação do setor é “desesperadora”, e que o governo “não impõe ordem”.
“Eles não nos apoiam com dinheiro porque não o têm. Poderiam nos apoiar com a ordem pública… Mas também não fazem isso”, disse. “Aceitamos [o confinamento], primeiro porque não há outra opção, e depois porque nós, empresários, não somos suicidas, queremos cuidar das nossas famílias e dos trabalhadores. Mas também queremos cuidar das nossas empresas.”
Grinman disse que não espera ajuda “em termos econômicos” porque isso implicaria em emissão monetária e consequente inflação, mas pensa que pode estabelecer a ordem, coibindo protestos – muitos deles contra o governo – e outras aglomerações. As informações são do jornal O Globo.
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